Outro dia , comentei num post do Anarco , sobre a Felicidade .
Pois é , … Wonder/Land - Nowhere/Land … - In- a- Moment/Land … Impossible/Land…
– cada um : cada um .
Talvez … , “feliz” seja território paradoxal , que vai revelando camadas sucessivas de interpretação ,
abrigando metamorfoses que se desdobram e ondeiam na eloquência do dizível ,
aquele … que nunca morre de frio ou em uma história que não existe .
Talvez… seja feita pra quem abre mão de super-poderes . . .
pra quem abre mão do adiado e fantástico fascínio de viver em histórias que não existem .
Ou percebam que o eterno e a ficção não precisam tanto de amigos . Nem as paredes .
Eu penso que a felicidade exige um certo treino .
Uma tremenda coragem e alguma coisa assim . . . como uma curiosidade sem-fim .
Uma importância urgente de estar no mundo e perceber o que é que o mundo tem .
Vôos , mergulhos , alegrias , tristezas , esperas , abraços , amores ,
perguntas , saudades , entregas , exigências, opiniões e ar . Muito ar.
Felicidade é ser . Estar . A ousadia de estar . Em cada busca , em cada encontro , em cada dúvida .
Não é rir à toa . É rir : É emocionar-se .
Talvez… seja simplesmente : perceber .
Poizé,
e eu , - que já me conformei com o amor , que derepente , a chuva passou a sentir pelos meus finais de semana ,
resolvi retribuir-lhe toooodo este carinho , com todos os filmes, acolchoados , bis ,
salgadinhos e boas companhias ,
… e nós duas , unidas por esta paixão insisteeeeeente não podíamos deixar de recomendar , ah . . . o melhor ,
ou um dos melhores momentos do Woody Allen e , claro . . . o melhor vinho .
Gênio , gênio e mais gênio , que , com toda a simplicidade sofisticada dos gênios ,
” genialmente “ desprovida de apelações escalafobéticas , clichês apocalípticos ,
efeitos esquizofrêncios , ou defasados espantos cósmicos . . . ,
traz uma mensagem fascinante , verdadeira , sobre a importância dos nossos sonhos ,
nossas singularidades e a força de nossas atitudes em direção à Felicidade .
Uma angústia inexplicável , – uma esquina [ em Paris , in its total & bewitching of course... ] ,
um convite
e um táxi que brinca com o tempo , com as imagens , com a metade da noite ,
com os sonhos e com a distância inexistente entre o que somos , o que desejamos . . . e nossa realidade .
Tudo isso em um conto de fadas . . . pra pessoas de bom gosto .
Se ainda não viu , – ah … não perca não !
- be my guest … - and Voilà :
por Vinicius Carlos Vieira :
Woody Allen é um cara apaixonado .
Por seus filmes , por suas mulheres ,
pelas cidades em que passa e , mais que tudo , pelo cinema ,
só isso explica o quanto Meia Noite em Paris é deliciosamente apaixonante .
E talvez seja essa mesma paixão que mova o cineasta novaiorquino
a começar seu novo filme deslumbrado pelas belezas da capital francesa ,
trocando o fundo preto e os créditos iniciais por um verdadeiro tour pela Cidade Luz ,
como se tivesse a necessidade de se redimir da injustiça
de não conseguir mostrar tudo aquilo durante seu filme .
Ou simplesmente para convidar seu espectador a se apaixonar por aquela cidade ,
como ele parece ter se apaixonado e , consequentemente , seu protagonista .
A bola da vez agora de interpretar a “ persona ” de Allen é responsabilidade de Owen Wilson , que vive Gil ,
um roteirista de Hollywood que vai à Paris com a noiva e os sogros e acaba descobrindo uma nova cidade . . .
depois … das badaladas do início da madrugada.
Na verdade , é esse casal que Woody prefere apresentar durante os créditos iniciais , ao invés de seu jazz tradicional .
Ele romântico , . . . tentando escapar do marasmo artístico dos roteiros descartáveis e escrever seu primeiro romance ,
inspirado por tudo que Paris representa ( e representou ) , -
enquanto ela , vivida por Rachel McAdams , prefere não enxergar nada disso ,
sem conseguir entender qual a obsessão do namorado por aquela cidade ( e pela . . . chuva ) .
Meia Noite em Paris é então uma história de amor ,- entre Gil , Woody Allen ( – o espectador ) . . . e Paris ,
talvez no sentido figurado , – e o mais provavel é que não :
já que o diretor não se esconde por trás de nenhum simbolismo ou metáfora
para levar seu personagem em uma viagem no tempo de volta à Idade de Ouro dessa cidade ,
durante a década de 20 , cheia de escritores , artistas e personalidades que ,
não sem exagero , deram o ponta-pé inicial
para muito do que hoje existe em termos de arte .
Woody Allen então convida seu espectador a participar dessa deliciosa viagem ,
pela boemia da Cidade Luz na companhia dessa grande festa onde personagens famosos
e verdadeiras homenagens dão uma vida enorme a seu filme
e parecem dar as caras : como um enorme playground de referências .
É impossível não saborear cada linha de diálogo entre Gil e um Ernest Hemingway -
[ ha ha ha : simplesmente genial ! ] :
Carey Stoll , que na TV é um dos protagonistas da série Lei e Ordem LA -
com cara de bêbado suicida ,
pessimista , galanteador , tétrico e obcecado por sua espingarda de caça .
E Meia Noite em Paris não se esconde porá trás de um lado “ pseudo-intelectual ” ,
que nesse caso é irritantemente representado pelo personagem de Michael Sheen ( sempre ótimo ) ,
amigo de faculdade da noiva de Gil e , aparentemente . . .
capaz de ser expert em todo e qualquer assunto que exista no mundo .
Na realidade Sheen é talvez a mola central dessa artimanha de Allen
para criar mais ainda esse protagonista simpático , já que todos a sua volta , aos poucos , . . . se tornam insuportáveis ,
. . . vazios e céticos , incapazes de viver essas experiências ( ou se deixarem viver por elas ) .
É lógico que Woody Allen faz disso um instrumento , uma arma até ,
contra todos que ainda dão mais valor a uma enciclopédia
do que a vontade de viver essas novas experiências .
Mais ainda . . . – reafirmando-se nesse “ tour mundial ” que vem fazendo ,
saindo de seu habitat em Manhattan , para que seu cinema experimente novos ares ,
da misteriosa Londres em : “Match-Point” ,
da “ caliente ” Espanha em : “ Vicky Christina Barcelona ” [ inesquecível ! ]
e agora . . . toda a poesia de Paris .
Assim como seu protagonista ( ou o contrário ) Woody Allen parece à procura de viver essas experiências
e não de falar sobre elas como se as tivesse lido em um livro ,
e isso é imprescindível para que “ Midnight in Paris ” seja essa experiência tão apaixonante ,
já que é tão fácil se sentir como um companheiro de viagem do diretor , nessa louca viagem .
Mas Allen não se perde nessa paixão ,
Meia Noite em Paris ainda é , sobretudo , um “ filme de Woody Allen ” ,
com um protagonista frágil , pragmático , preso em um mundo que parece não aceitá-lo ,
mas sem medo de deixar suas opiniões ácidas vazarem por grandes planos de diálogos .
Também permite que ele viva essa história de amor fora de época
com uma espécie de “ musa inspiradora ” ( a linda Marion Cotillard )
de um trio de pintores ( Modigliani , Braque e Picasso ) dos quais foi amante .
Por outro lado , essa “ viagem no tempo ” dá ainda a chance de Woody Allen zombar
da cadeira de vinte mil dólares no presente , ao mesmo tempo em que
se permite ver um quadro de Matisse sendo vendido por quinhentos francos ,
- esse tipo único de ironia que sempre se perpetua pela filmografia do diretor
e acaba sendo uma verdadeira válvula de escape
para que ele possa remexer em mais um monte de assuntos pertinentes .
. . . Ou você não percebeu que a família da noiva vai , em plena Paris ,
ver uma comédia descartável de Hollywood ,
cujos nomes dos atores nem ao menos são lembrados .
E talvez seja isso que Allen mais tenta em sua carreira :
mostrar que nem tudo precisa ser descartável para fazer sucesso e ser popular .
Infelizmente , uma discussão que Woody Allen talvez perca ,
já que na maioria das vezes seus filmes
ainda acabem caminhando apenas na borda deste sucesso ,
o que talvez o faça se sentir como seu personagem ,
na divertida conversa com o trio formado por Man Ray ,
Salvador Dali : um Adrian Brody incrivelmente interessante ,
como todo resto do elenco , – e Luis Buñuel ( que depois … , em outro momento ,
ainda ganha “ de brinde ” o ponto de partida para seu Anjo Exterminador ,
mesmo sem entender : - “ por que eles não conseguem sair daquele lugar ! ” ) - ,
onde a verdade acaba se perdendo de modo surrealista
entre significados existenciais e rinocerontes .
Como se : mesmo tentando mostrar o que fazer , . . . sempre alguém acabe “ lendo demais ” algo ,
. . . que é só feito para ser sentido . [ ! ]
E é então que se percebe que Meia Noite em Paris não quer ser simbólico , metafórico , surrealista
ou . . . cheio de leituras ( como eu já citei ) ,
mas sim : só quer contar essa história ,
juntar esses personagens nessa história de amor e , no final das contas ,
ter a certeza de que o presente sempre parece insuficiente para quem não tem limites para sonhar
e às vezes perceber . . . que a única coisa necessária é : esse momento de chuva sobre Paris .
que . . . ( realmente ) acaba deixando-a muito mais bonita .
VIDEO
E essa impressão . . . , só consegue ser passada realmente por um gênio como Woody Allen que ,
decididamente , é um cara apaixonado , … e mais que qualquer coisa , apaixonado pelo cinema .
Escolhi a crítica do Vinicius Carlos Vieira – mas a do Pablo está genial e a do Omelete também.
E mais um achado , uma coisa incrível que o Renato achou pra nós :
Fy