Este mundo :
uma monstruosidade de forças , sem início , sem fim ,
uma Firme , brônzea grandeza de força , que não se torna maior , nem menor ,
que não se consome , mas apenas se transmuda , inalteravelmente grande
em seu todo , uma economia sem despesas e perdas , mas também sem
acréscimo , ou rendimento , cercada de “ nada ” como de seu limite , nada de
evanescente , de desperdiçado , nada de infinitamente extenso ,
mas como força determinada posta em um determinado espaço , e não em um espaço
que em alguma parte estivesse “ vazio ” ,
mas antes como força por toda a parte
como um jogo de forças e ondas de força ao mesmo tempo um e múltiplo ,
aqui acumulando-se e ao mesmo tempo ali minguando ,
um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias ,
eternamente mudando , eternamente recorrentes , com descomunais anos de retorno ,
com uma vazante e enchente de suas configurações ,
partindo das mais simples às mais múltiplas ,
do mais quieto , mais rígido , mais frio
ao mais ardente , mais selvagem , mais contraditório consigo mesmo ,
e depois outra vez voltando da plenitude ao simples ,
do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância ,
afirmando ainda a si próprio ,
nessa igualdade de suas trilhas e anos ,
abençoando a si próprio como aquilo que eternamente tem que retornar ,
como um vir-a-ser que não conhece nenhuma saciedade , nenhum fastio , nenhum cansaço ( … )
Quereis um nome para esse mundo ?
Uma solução para todos os seus enigmas ?
Uma luz para todos nós , vós , os mais escondidos , os mais fortes , os mais intrépidos ,
os mais da meia-noite ?
– Esse mundo é vontade de potência – e nada além disso !
E também vós próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!
- NIETZSCHE -
A hora é de avaliar e buscar perspectivas .
E nesse sentido a primeira constatação a ser evocada é que a Dança [ e a Vida ]
ainda está sob a égide da colonização .
Apesar de atrelada aos padrões do clássico europeu ou do moderno norte americano ,
conseguiu no entanto se libertar do discurso narrativo e linear.
Enredo e tema passaram a ser desnecessários
e a dança assumiu o movimento como elemento suficiente
para criação coreográfica e revelação do espetáculo .
O fenômeno “ mover-se ” fala a despeito do dançarino .
Esse mover re-significa sua sensibilidade , fisicalidade , história de vida , herança cultural e genética
que : somadas ao seu preparo profissional e artístico
resultam num discurso corporal pessoal e intransferível que promove a dança .
O mundo contemporâneo rompeu com a precisão e a certeza .
Assumiu o risco , a fragmentação e a incoerência .
O virtuosismo baseado na perfeição e na aproximação máxima ao padrão estético estabelecido caiu por terra .
O novo desafio não está em aparecer ao outro ,
mas no reconhecimento de si próprio ao se apresentar para o outro .
A proposta é um corpo que dança sua presença singular .
O processo coreográfico busca as possibilidades criativas geradas
a partir de competências corporais territorializadas .
Não se trata mais do corpo universal ,
mas de um corpo produzido por funções e saberes locais
e que por isso se reconhece sujeito capaz de uma performance que é única ,
pois responsável por sua única e insubstituível Vida .
Tudo está em questão:
Quais os elementos que definem uma coreografia ? Qual o papel do coreógrafo ?
É possível falar de uma dramaturgia da dança ?
Há uma técnica eficiente e segura para preparação do dançarino ?
São infinitas as perguntas e não menos infinitos os caminhos
para os pesquisadores da dança se debruçarem em investigações .
Certo é que a dança não quer mais se alienar numa estética estéril .
Para tanto redimensiona o papel da técnica e do virtuosismo que tanto lhe promoveu
em outros momentos , para traduzir o estranhamento , o risco e o acaso .
Trata de rever as dimensões do corpo , sua expressão , limites e potenciais .
O produto e o processo coreográfico também foram reconsiderados .
O papel do coreógrafo , o sentido da improvisação , a formação do dançarino , tudo está em questão .
Felizmente a dança não está mais segura e timidamente tenta afrouxar-se do sistema rígido de referência .
Está “ desconstruindo ” , ou seja , se deslocando do logocentrismo* , no caso o eurocentrismo* .
Repetindo > Está “ desconstruindo ” , ou seja , se deslocando do logocentrismo* , no caso o eurocentrismo* .
Busca novas conexões com outros conhecimentos , reconhecendo um mundo sem hierarquias estéticas ou culturais .
Mergulhados nessas questões , os pesquisadores Lúcia Lobato e Sérgio Andrade ,
selecionados pelo Programa PIBIC/2006 da Universidade Federal da Bahia ,
estão desenvolvendo a pesquisa intitulada :
“ Identificação do Princípio da Desconstrução de Jacques Derrida na coreografia contemporânea ”
que tem como campo de observação o espetáculo desconstrucionista
intitulado “ Obras de uma carta anônima ” do
grupo baiano CoMteMpu´s .
- Por que Derrida ?
Porque esse estranhamento que desafia a atual produção coreográfica poderá melhor
ser absorvido à luz do princípio da “ desconstrução ” de Derrida e através de alguns de seus indicadores :
como o deslocamento da cultura de referência , o diálogo crítico , a ampliação de conexões com outros saberes ,
a revelação que questiona a estrutura interna , o fenômeno do afrouxamento ao sistema rígido , o conseqüente
processo de descolonização , o respeito às diferenças ,
a alteridade e o reconhecimento do inconsciente que fala “ a despeito de ” .
Jacques Derrida foi um dos fundadores do Pós-Estruturalismo
que reuniu pensadores como Bataille , Deleuze , Foucault , entre outros .
O movimento Pós-Estruturalista inaugura com Derrida uma filosofia que ,
embora atrelada à tradição do pensamento ocidental ,
propõe a ruptura com esta dependência ,
principalmente no que concerne à lógica da identidade herdada de Aristóteles .
Por meio do princípio batizado como “ desconstrução ” ,
Derrida deu início a uma inovadora investigação sobre a natureza da tradição metafísica ocidental .
Essa tradição fundamentava seu argumento em três leis :
1 - a lei da Identidade considerando que aquilo que é , simplesmente é ;
2 - a da Contradição definindo que nada pode ser e não ser ao mesmo tempo ;
3 - e a do Excluído determinando que tudo deve ser ou então não ser .
É obvio que essas leis não admitem que haja nos fenômenos características como ,
por exemplo : a complexidade , a auto-presença e a diferença .
Esses três princípios sustentaram o positivismo e o espírito da modernidade .
Mas o movimento Pós- Estruturalista já não se contentava em pensar as transformações do mundo
e das sociedades em bases tão dicotômicas .
Afinal “ ser ou não ser ” já não era uma questão ,
pois os fenômenos já se apresentavam podendo ser e não ser ao mesmo tempo .
Foram as idéias dos pós-estruturalistas que apontaram para o que viria a ser
um pensamento pós-moderno .
Nesse processo , as investigações de Derrida revelaram que a tradição era cheia de paradoxos .
O interessante , no entanto , é que , apesar desses resultados , Derrida não almejou ,
com a apresentação do princípio da desconstrução ,
apontá-lo como um instrumento eficaz para acabar com as contradições .
Tampouco se colocou imune e capaz de fugir às exigências da tradição a partir de um sistema próprio e autônomo .
Ao contrário , reconheceu que é necessário não abandonar ,
pelo menos temporariamente , os mesmos conceitos considerados insustentáveis .
Não propôs a ruptura , mas redimensionou a função da metafísica tradicional no processo de descolonização .
Apontou a necessidade de desconsiderar a cultura de referência ,
introduzindo o valor do diferente e o discurso do “ deslocamento ” .
Com esse propósito define o princípio da Desconstrução .
A compreensão dessa categoria filosófica passa pelo esclarecimento de que não significa ,
nem é empregada pelo autor como sinônimo de destruição ou
demolição de um dado fenômeno ou argumento em sua totalidade .
Ao contrário, trata-se de desvelar os reflexos conceituais ,
as seqüências e associações de idéias que precedem e condicionam os pensamentos ,
operando > como o inconsciente que fala > “ a despeito de ” .
Podemos inferir que a desconstrução , tal qual proposta ,
é um processo de revelação que questiona a “ estrutura interna ” do discurso ,
descobrindo o sintoma do campo cognitivo que ele chama de “ logocentrismo ” .
Ou seja, a desconstrução seria uma forma de diálogo crítico .
Mas não seria uma crítica para reverter à oposição , mas sim para deslocá-la do “ logocentrismo ” ,
afrouxando-a do sistema rígido de referência que restringe a compreensão
e não amplia novas conexões de conhecimento .
A desconstrução propõe um olhar ampliado e contínuo ,
ao invés da observação do fenômeno localizado e isolado .
Por essa razão não se limitou aos instrumentos disponíveis na filosofia tradicional ,
pois busca a pluralização e a adjetivação dos atributos em vez da fixação e substantivação .
Trazendo o argumento exposto para o nosso campo de reflexão ,
é possível inferir que o principal desafio da dança contemporânea
que nas diferentes conjunturas históricas sempre esteve homogeneizada e
modelada nas estéticas dominantes das hierarquias do poder tradicional é :
exatamente distender-se desses códigos encarnados ,
através da expansão e absorção de suas próprias realidades
e diversidades étnicas e culturais , embora ainda distantes .
Trata-se de enfrentar as históricas estruturas de poder .
Vencer este desafio exige enfrentar os preconceitos
e o caráter elitista de nossa colonização de origem escravista que
sempre desprezou e inferiorizou nossas práticas espetaculares .
Só vencendo nossos medos civilizatórios e desconstruindo a estética colonizadora ,
imposta como ” padrão de valor superior ” ,
poderemos vir a descobrir a riqueza e diversidade de nossas danças . - e de nossas Vidas -
Bibliografia:
Derrida , Jacques- Gramatologia
Geertz , Clifford – O Saber Local , Novos Ensaios em Antropologia Interpretativa .
Johnson , Christopher – Derrida , A cena da escritura , São Paulo , UNESP , 2001 .
Lechte , John – Cinqüenta pensadores contemporâneos essenciais : do estruturalismo à pós-modernidade .
Eliana Rodrigues Silva – Dança e Pós Modernidade . Salvador , editora da Universidade Federal da Bahia – EDUFBA , 2005 .
Ilustração:
STEVEN MEISEL :
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