
- Mirei na embarcação .
Uma rajada de vento dificultava a visão .
Na medida dos meus olhos observava o vermelho se espraiando no horizonte … Tinha dúvidas …
Era como se um punhado de sol esperneasse antes de cair no fundo do mundo giratório . -
Se tomássemos essa visão como bebida ,
ou empunhássemos esse ângulo de observação na mão ,
e se aí pegando , sentindo , encravando a concretude misturada a um abstratismo urgente ,
poderíamos dizer estar diante de uma obra de arte contemporânea .
Sou um leigo nesta questão .
Tomei contato com a ferida desta arte há pouco tempo .
Julgo que o que me arrebatou desde então
foi a possibilidade de multiplicar sentidos conforme a perspectiva que se vê uma obra de arte .
E a arte contemporânea ( falo aqui de pinturas e artes plásticas principalmente )
é feita a partir da perspectiva do autor .
Toda a ambivalência de sentidos aí provocada é fruto do encontro entre perspectiva do artista e do “ apreciador ” .
Segundo o Wikipedia , “ o belo contemporâneo não busca mais o novo , nem o espanto ,
como as vanguardas da primeira metade deste século :
propõe o estranhamento ou o questionamento da linguagem e sua leitura . ”
Segundo o artista plástico e escritor Nuno Ramos , a arte existe para “ furar ” .
“ Se você pegar a Igreja Católica , o poder católico , não era para ter sido feita a Capela Sistina . Mas foi .
. . . Alguma coisa na arte parece conseguir pegar o peso mórbido da vida e dar um rolê . ”
arrisca-se num gesto que é clichê e , também , completamente absurdo .
Esse é um dos desafios – brincar com as certezas e os estranhamentos ,
com os paradoxos da própria imagem , de uma forma sutil ,
quase imperceptível …
A arte deve ter o poder de crismar ou excomungar um “ padre ” , expor a fome de um satisfeito , revelar estéticas escondidas na pobreza …
Mais do que permitir novos sentidos , a arte provoca uma queda de sentidos e permite a capacidade de contemplar .
Proponho aqui uma discussão sobre a apreensão da beleza .
A beleza , que pode ser extraída até da feiúra , está no olhar e na interação .
E sempre sobra um Vazio porque o Desejo quer “ pegar ” o “ objeto ” e levar consigo .
Mesmo que se leve um objeto , sempre falta … A insatisfação faz o desejo continuar gotejando …
TEXTO :
Caio Garrido -
Caio Garrido é escritor – psicanalista – poeta e baterista – and a friend of mine .
Além de autor dos livros “Pena que foi Ontem” (Romance, 2010)
e “Poemas auto-escritos em estado de Sonambulovisão” (Poemas, 2011),
tem os seguintes blogues e trabalhos:
http://psiqueativa.blogspot.com/
http://nucleotavola.com.br/literatura/blog/
http://nucleotavola.com.br/revista/ - (editor associado da Revista Tavola)
http://caiogarrido.blogspot.com/
www.musicocontemporaneo.blogspot.com
http://penaquefoiontem.wordpress.com/
OBSERVAÇÕES :
Donaldo Shüller
Nuno Ramos
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GRAVURAS:
Nuno Ramos
Miró
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