windmills by fy

10/02/2012

Aporia – 1

Filed under: Uncategorized — Fy @ 7:09 AM

 

 

 

 O        H O M E M  

a despeito de suas pretensões artísticas , sua sofisticação e suas muitas realizações , 

deve sua existência a uma camada de 15 centímetros de solo e ao fato de que chove .

.

.

 

- Autor desconhecido -

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

            

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pensamento deve lançar-se acima dos  “ fatos ”   para interrogar-se ,

não apenas sobre suas causas mecânicas ,

mas também sobre o que os faz serem o que são ,

sobre os agenciamentos de enunciação de que eles são : os enunciados ,

sobre os mundos de vida e de significação do magma dos quais eles surgem .

 

 

 

 

Remontar até às fontes , tal é o sentido do problema do transcendental . 
  
 Através de que há um mundo ?

 

 

A história da filosofia e , parcialmente , a da ciência ,

podem ser consideradas como o conjunto de proposições

que foram articuladas para responder esta questão .

 

 

Evidentemente não é possível retomar aqui toda a história da filosofia e nem mesmo resumí-la .

Contentar-nos-emos com algumas sondagens inspiradas por alguns trabalhos recentes ,

depois mostraremos como as máquinas de Guattari   [ que podem ser tudo , exceto mecânicas ] 

nos ajudam hoje a   re-colocar este problema . 

 

 

 No lugar sem lugar da origem sempre presente , será preciso eleger , depois de Kant ,

um sujeito transcendental do conhecimento ?

 

 

Ou então , como os cognitivistas contemporâneos , uma arquitetura do sistema cognitivo humano ?

 

 

 

Isto nos remete imediatamente a uma nova instância ,

pois o fundamento biológico do sujeito cognitivo está no cérebro ,

como pensam hoje os conexionistas e os adeptos do homem neuronal .

 

 

Ora , mesmo correndo o risco de situar a última fonte no estrato biológico ,

não seria preferível considerar o organismo inteiro ,

suas operações recursivas e sua autopoiése , como o sujeito cognitivo último , aquele que calcula seu mundo ?

Nisto seguiríamos toda a corrente da segunda cibernética ,

especialmente ilustrada por von Foerster , Maturana e Varela .

 

Teríamos então atingido o termo ?

 

 

Não , pois o organismo tal como ele é , remete duas vezes às contingências da História :

o   “ fora”   intervém uma primeira vez através da construção ontogenética  e da experiência de vida ;

ele se aloja uma segunda vez no coração do organismo específico ao acaso da filogênese .

A evolução biológica , por sua vez , não pode se separar da história infinitamente bifurcante e diferenciada da biosfera ,

e até mesmo além . . .  –  ela se conecta rizomaticamente com a terra ,

com suas redobras e seus climas ,

com os fluxos cósmicos ,

com todas as complexidades da physis e de seu devir .

 

 

 

 

 

 

 

 

  

                                                                                                                                                                                                                                            

 

 

 

 Ao invés de conduzir , gradativamente , do cognitivo ao biológico e do biológico ao físico ,

a meditação do sujeito transcendental do conhecimento pode remeter a seu outro :

o inconsciente dos afetos , das pulsões e dos fantasmas .

Mas , ainda aqui , é impossível deter-se no inconsciente freudiano como um termo último .

 

 

Guattari e Deleuze mostraram que o dito inconsciente não se limita

a um reservatório de desejos incestuosos ou agressivos e recalcados ,

[  e neuróticas sombras . . . ameaçadoras  ]

 

 

 

          

                                                                                                                                   

 

 

 

 

 que está aberto  : sobre a História , a sociedade e o cosmo .

 

O inconsciente total , que não é mais concebido como uma entidade intrapsíquica ,

são os agenciamentos coletivos de enunciação ,

os rizomas heterogêneos ao longo dos quais circulam nossos desejos

e pelos quais se lançam e se relançam nossas existências .

 

                                                                                                                                             

 

 

Ora . . . 

não se pode estabelecer uma lista a priori de tudo o que entra na composição

dos agenciamentos de enunciações e das máquinas desejantes :

lugares , momentos , imagens , linguagens ,

instituições , técnicas , fluxos diversos , etc – etc – etc . . .  

E finalmente , de novo , descobrimos que o termo último ,

ou melhor , o horizonte sem fim do transcendental , aqui nomeado : [ . . . ]   “ inconsciente ”   [ . . . ] ,

 bem poderia ser o próprio mundo .  !

 

 

 Voltemos à encruzilhada de onde partimos , o sujeito do conhecimento ,

para seguir uma terceira via , aquela da empiria .

 

 

A experiência não é originária ?

 

 

 

 

 

E antes mesmo da experiência , os sentidos que a tornam possível ?

 

 

Em   Os cinco Sentidos , Michel Serres conseguiu a proeza de construir ,

a partir de cada uma das modalidades sensoriais , uma metafísica , uma física ,

uma gnosiologia , uma estética , uma política e uma ética .

 

 

A sensação seria , por conseguinte , fundadora .

 

 

Mas o próprio do tato , da audição , do olfato , do paladar

e da vista não seria o de se remeter ao mundo ?

 

 

Se a percepção faz existir para nós o fora , por outro lado ,

é também sobre o devir e o terrível esplendor do mundo que repousa a vida dos sentidos .

 

 

Ser ,   é ser percebido  ,   dizia Berkeley .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por uma reversão talvez previsível , o livro seguinte de Michel Serres , Statues ,

punha a coisa . . .  , a massa  , a exterioridade a mais densa no fundamento dos coletivos humanos ,

das subjetividades e do conhecimento .

 

 

O empirismo situa o mundo no coração do conhecimento .

É o que Kant, que havia pretendido colocar o sujeito no centro ,

demonstrou muito bem em sua metáfora da   “ revolução copernicana ” em filosofia .

Mas . . . :  por mais que se queira expulsar o mundo pela grande porta do transcendental ,

ele volta . . .  pelas janelas do corpo ,

sob o aspecto de imagens impalpáveis que habitam e fazem viver o sujeito ,

e pela força do tempo , . . .   que tudo transforma .  

 

 

Explorando outras vias ,

podemos remontar o sujeito individual às significações sociais que o habitam ,

ao imaginário instituinte que o atravessa (Castoriadis) ,

à remissão historial que o destina ( Heidegger )  ,

aos épistémai que estruturam seu discurso   ( Foucault )    etc.

 

Recordemos que a principal *aporia ,

quando se considera que  um transcendental histórico existe ,

. . .  mas . . .  sob o efeito de que causas , de que devires inominados , ele se metamorfoseia permanentemente ?

 

*-  Aporia  >  [Do gr. aporia , “ caminho inexpugnável , sem saída ” , “ dificuldade ” . ]

é definida como uma dificuldade , impasse , paradoxo , dúvida ,

incerteza ou momento de auto-contradição

que impedem que o sentido de um texto ou de uma proposição seja determinado .

 

 

 

 

 

 

Se concebêssemos causas e efeitos na região transcendental , o que então a diferenciaria do campo empírico ?

Todo o fatual e o contigente da História   ( geografia , quedas de impérios , propagações de religiões , invenções técnicas , epidemias  etc. )

não retroage sobre a região historial ?

.

 

 

 

 

 

Não resultam as idas e vindas do transcendental histórico , de efeitos ecológicos , de processos cosmopolitas ?

Ah . . .  > mais uma vez , para compreender   ” aquilo através de  que “   há um mundo ,

nós somos conduzidos à complexidade e aos redemoinhos do próprio mundo . 

 .

 

 

 

 

continua … depois do carnaval …

 

Fy 

 

 

 

 

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