O H O M E M
a despeito de suas pretensões artísticas , sua sofisticação e suas muitas realizações ,
deve sua existência a uma camada de 15 centímetros de solo e ao fato de que chove .
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- Autor desconhecido -
O pensamento deve lançar-se acima dos “ fatos ” para interrogar-se ,
não apenas sobre suas causas mecânicas ,
mas também sobre o que os faz serem o que são ,
sobre os agenciamentos de enunciação de que eles são : os enunciados ,
sobre os mundos de vida e de significação do magma dos quais eles surgem .
Remontar até às fontes , tal é o sentido do problema do transcendental .
Através de que há um mundo ?
A história da filosofia e , parcialmente , a da ciência ,
podem ser consideradas como o conjunto de proposições
que foram articuladas para responder esta questão .
Evidentemente não é possível retomar aqui toda a história da filosofia e nem mesmo resumí-la .
Contentar-nos-emos com algumas sondagens inspiradas por alguns trabalhos recentes ,
depois mostraremos como as máquinas de Guattari [ que podem ser tudo , exceto mecânicas ]
nos ajudam hoje a re-colocar este problema .
No lugar sem lugar da origem sempre presente , será preciso eleger , depois de Kant ,
um sujeito transcendental do conhecimento ?
Ou então , como os cognitivistas contemporâneos , uma arquitetura do sistema cognitivo humano ?
Isto nos remete imediatamente a uma nova instância ,
pois o fundamento biológico do sujeito cognitivo está no cérebro ,
como pensam hoje os conexionistas e os adeptos do homem neuronal .
Ora , mesmo correndo o risco de situar a última fonte no estrato biológico ,
não seria preferível considerar o organismo inteiro ,
suas operações recursivas e sua autopoiése , como o sujeito cognitivo último , aquele que calcula seu mundo ?
Nisto seguiríamos toda a corrente da segunda cibernética ,
especialmente ilustrada por von Foerster , Maturana e Varela .
Teríamos então atingido o termo ?
Não , pois o organismo tal como ele é , remete duas vezes às contingências da História :
o “ fora” intervém uma primeira vez através da construção ontogenética e da experiência de vida ;
ele se aloja uma segunda vez no coração do organismo específico ao acaso da filogênese .
A evolução biológica , por sua vez , não pode se separar da história infinitamente bifurcante e diferenciada da biosfera ,
e até mesmo além . . . – ela se conecta rizomaticamente com a terra ,
com suas redobras e seus climas ,
com os fluxos cósmicos ,
com todas as complexidades da physis e de seu devir .
Ao invés de conduzir , gradativamente , do cognitivo ao biológico e do biológico ao físico ,
a meditação do sujeito transcendental do conhecimento pode remeter a seu outro :
o inconsciente dos afetos , das pulsões e dos fantasmas .
Mas , ainda aqui , é impossível deter-se no inconsciente freudiano como um termo último .
Guattari e Deleuze mostraram que o dito inconsciente não se limita
a um reservatório de desejos incestuosos ou agressivos e recalcados ,
[ e neuróticas sombras . . . ameaçadoras ]
que está aberto : sobre a História , a sociedade e o cosmo .
O inconsciente total , que não é mais concebido como uma entidade intrapsíquica ,
são os agenciamentos coletivos de enunciação ,
os rizomas heterogêneos ao longo dos quais circulam nossos desejos
e pelos quais se lançam e se relançam nossas existências .
Ora . . .
não se pode estabelecer uma lista a priori de tudo o que entra na composição
dos agenciamentos de enunciações e das máquinas desejantes :
lugares , momentos , imagens , linguagens ,
instituições , técnicas , fluxos diversos , etc – etc – etc . . .
E finalmente , de novo , descobrimos que o termo último ,
ou melhor , o horizonte sem fim do transcendental , aqui nomeado : [ . . . ] “ inconsciente ” [ . . . ] ,
bem poderia ser o próprio mundo . !
Voltemos à encruzilhada de onde partimos , o sujeito do conhecimento ,
para seguir uma terceira via , aquela da empiria .
A experiência não é originária ?
E antes mesmo da experiência , os sentidos que a tornam possível ?
Em Os cinco Sentidos , Michel Serres conseguiu a proeza de construir ,
a partir de cada uma das modalidades sensoriais , uma metafísica , uma física ,
uma gnosiologia , uma estética , uma política e uma ética .
A sensação seria , por conseguinte , fundadora .
Mas o próprio do tato , da audição , do olfato , do paladar
e da vista não seria o de se remeter ao mundo ?
Se a percepção faz existir para nós o fora , por outro lado ,
é também sobre o devir e o terrível esplendor do mundo que repousa a vida dos sentidos .
Ser , é ser percebido , dizia Berkeley .
Por uma reversão talvez previsível , o livro seguinte de Michel Serres , Statues ,
punha a coisa . . . , a massa , a exterioridade a mais densa no fundamento dos coletivos humanos ,
das subjetividades e do conhecimento .
O empirismo situa o mundo no coração do conhecimento .
É o que Kant, que havia pretendido colocar o sujeito no centro ,
demonstrou muito bem em sua metáfora da “ revolução copernicana ” em filosofia .
Mas . . . : por mais que se queira expulsar o mundo pela grande porta do transcendental ,
ele volta . . . pelas janelas do corpo ,
sob o aspecto de imagens impalpáveis que habitam e fazem viver o sujeito ,
e pela força do tempo , . . . que tudo transforma .
Explorando outras vias ,
podemos remontar o sujeito individual às significações sociais que o habitam ,
ao imaginário instituinte que o atravessa (Castoriadis) ,
à remissão historial que o destina ( Heidegger ) ,
aos épistémai que estruturam seu discurso ( Foucault ) etc.
Recordemos que a principal *aporia ,
quando se considera que um transcendental histórico existe ,
. . . mas . . . sob o efeito de que causas , de que devires inominados , ele se metamorfoseia permanentemente ?
*- Aporia > [Do gr. aporia , “ caminho inexpugnável , sem saída ” , “ dificuldade ” . ]
é definida como uma dificuldade , impasse , paradoxo , dúvida ,
incerteza ou momento de auto-contradição
que impedem que o sentido de um texto ou de uma proposição seja determinado .
Se concebêssemos causas e efeitos na região transcendental , o que então a diferenciaria do campo empírico ?
Todo o fatual e o contigente da História ( geografia , quedas de impérios , propagações de religiões , invenções técnicas , epidemias etc. )
não retroage sobre a região historial ?
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Não resultam as idas e vindas do transcendental histórico , de efeitos ecológicos , de processos cosmopolitas ?
Ah . . . > mais uma vez , para compreender ” aquilo através de que “ há um mundo ,
nós somos conduzidos à complexidade e aos redemoinhos do próprio mundo .
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continua … depois do carnaval …
Fy





