windmills by fy

29/12/2010

Nietzsche – Vontade de Potência – os gatos… as lebres …

Filed under: Uncategorized — Fy @ 12:41 AM

” O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos . ”

Friedrich Nietzsche

 

 

Pra se falar em Nietzsche –  é preciso um pouco mais de respaldo cultural , além de papai do céu e masturbação ,

. . .  muito embora a psicologia  explique  os dois , basicamente com os mesmos recursos .

Tentar enveredar por uma temática  quando seus  conceitos em relação à mesma ainda não estão bem definidos

ou …  conhecidos ,  ah … muitos conflitos e deturpações do termo acabam pipocando como …  pérolas …  .

 

 

 

E , aiaiai , que bizarrice .

 

 

 

Lembrando que o Wind é um blog deleuziano por princípio (Deleuze foi um grande admirador de Nietzsche) ,

anti-sócio e anti-colaborador de qualquer clube ou seita  ,

me lembrei de um genial ensaio de Deleuze sobre Nietzsche ,

traduzido ( com o usual e gostoso brilhantismo) pelo Francisco Fuchs .

 

Voilà :                  –  porque gatos …. não são lebres   … ah … e lebres não são gatos , … não  :

 

” I love to lose myself for a good while,

Like animals in forests and the sea,

To sit and think on some abandoned isle,

And lure myself back home from far away,

Seducing myself to come back to me.”

– Nietzsche

<p><a href=”https://vimeo.com/24380083″>Darkside Of The Lens</a> from <a href=”https://vimeo.com/mickeysmith”>mickey smith</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

 

A saúde pertence a quem tem sede na alma de percorrer com sua vida todo o horizonte dos valores e de quanto foi desejado até hoje ,

quem tem sede de circum – navegar as costas deste ideal mediterrâneo .

NIETZSCHE – 1882 : 280  

 

Dirigido pelo fotógrafo Mickey Smith  , “ The dark side of the lens ” explora  sua arte em sua essência ,

evocando a relação do talentoso fotógrafo com o surf e a fotografia  –

trazendo ao espectador ondas pesadas, paredões de pedra, reefs

e lindas imagens submarinas da costa oeste irlandesa.

O curta é um dos escalados para a competição Short Films .

 

 

A competição , tem como objetivo desafiar os filmmakers ao redor do mundo a explorar , revelar e celebrar uma atitude visceral diante da vida  –

e produzir filmes que não dependam de grandes orçamentos nem equipes ,

mas …   :  

que tragam ideias   e   habilidade , e consigam comunicar  :  poder e grandeza .

.

 

 

 

 

Talvez a primeira palavra que surge quando se fala em individualismo seja competição ,

mas não podemos torná-la vilã .

Uma coisa é competir com o outro de forma destrutiva ,

desejar algo que o outro não tenha , que o outro não consiga , que o outro realmente perca .

Agora , competir consigo mesmo pode ter um gosto diferente .

 

 

 

 

Esse gostinho fala de uma superação de limites ,

quando a gente consegue ultrapassar o que somos e crescermos com a experiência .

Faz parte da vida humana , não – hipócrita ,  competir , desejar mais , querer ir além … atingir …

E para Poder e Grandeza , embora não faltem interpretações oportunas … e gatunas …

trata-se dos mesmos  não só no plano concreto e visível, onde também não se  descarta sua importância ,

mas nos domínios da sensibilidade, da inteligência e do desejo.

 

 

 .

Quando perguntado pelo militante italiano Toni Negri  :

”  Qual política pode prolongar na história o esplendor do Acontecimento e da Subjetividade  ?  “

Deleuze respondeu com a mais heraclitiana e nietzschiana  das inspirações :

Acreditar no mundo é o que mais nos falta ,

nós perdemos completamente o mundo ,

nos desapossaram dele ,

Acreditar no Mundo significa principalmente  suscitar acontecimentos ,

mesmo pequenos , que escapem ao controle,

ou engendrar novos espaços-tempo… 

 
 – Deleuze –

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O filósofo do futuro é ao mesmo tempo explorador de velhos mundos , cumes e cavernas ,

e só cria à força de se lembrar de alguma coisa que foi essencialmente esquecida .

Essa alguma coisa , segundo Nietzsche , é a Unidade : do   Pensamento   e   da   Vida  .

 Unidade complexa :           

um passo para a vida , um passo para o pensamento .

Os modos de vida inspiram maneiras de pensar ,

os modos de pensamento criam maneiras de viver .

A vida ativa o pensamento ,

e o pensamento por sua vez afirma a vida .

Dessa unidade pré-socrática nós já não temos sequer a idéia .

 

Nós só temos exemplos em que o pensamento refreia e mutila a vida ,

modera-a ,                                                                      

e é onde a vida se vinga :  transtornando o pensamento e se perdendo com ele .

 

 Nós já não temos escolha senão entre Vidas Medíocres e Pensadores Loucos .

 

 

 

Vidas demasiadamente “ sábias ” para um pensador ,

pensamentos demasiadamente loucos para um vivo : Kant e Hölderlin .

 

 

Porém a bela unidade permanece por ser reencontrada ,

de tal modo que a loucura já não seria loucura –

unidade que faz de uma anedota da  vida um aforismo do pensamento ,

e de uma avaliação do pensamento , uma nova perspectiva da vida .

Esse segredo dos pré-socráticos está , de certa maneira , perdido desde a origem .

 

Nós devemos pensar na filosofia como uma força .

Ora , a lei das forças é que elas só podem aparecer cobrindo-se com a máscara das forças preexistentes .

 

A vida deve primeiramente imitar a matéria .

Foi preciso que a força filosófica , no momento em que nascia na Grécia , se disfarçasse para sobreviver .

Era preciso que o filósofo tomasse emprestado o aspecto das forças precedentes ,

que ele vestisse a máscara do sacerdote .

O jovem filósofo grego tem algo do velho sacerdote oriental .

Ainda hoje nos enganamos :

Zoroastro e Heráclito, os Hindus e os Eleatas, os Egípcios e Empédocles,

Pitágoras e os Chineses  –  todas as confusões possíveis .

Fala-se do filósofo ideal , de seu ascetismo , de seu amor pela sabedoria ;

mas não se sabe adivinhar a solidão e a sensualidade particulares ,

os fins muito pouco sábios de uma existência perigosa que se escondiam sob essa máscara .

O segredo da filosofia , uma vez que está perdido desde a origem ,

permanece por ser descoberto no futuro .

Era pois fatal que a filosofia só se desenvolvesse na história degenerando ,

e voltando-se contra si , deixando-se prender à sua máscara .

 

 

Ao invés da unidade de uma  Vida Ativa  e de um Pensamento Afirmativo ,

vê-se o pensamento dar-se a tarefa de :  julgar a vida ,

de lhe opor valores pretensamente superiores ,

de medi-la com esses valores e de limitá-la , condená-la .

Ao mesmo tempo em que o pensamento torna-se , assim, negativo ,

vê-se a vida depreciar-se , deixar de ser ativa ,

reduzir-se às suas formas mais fracas ,

a formas doentias somente compatíveis com : os valores … superiores .

Triunfo da   “ reação ”    >   sobre a Vida Ativa   , 

e da    ” negação ”      >  sobre o Pensamento Afirmativo.

São pesadas as conseqüências para a filosofia .

Pois as duas virtudes do filósofo legislador eram a crítica de todos os valores estabelecidos ,

isto é , dos valores superiores à vida e do princípio do qual eles dependem ,

e a criação de novos valores , valores da vida que reclamam outros princípios .

Martelo e Transmutação .

Mas ao mesmo tempo em que a Filosofia degenera ,

o Filósofo Legislador cede lugar ao Filósofo Submisso .

Ao invés da crítica aos valores estabelecidos ,

ao invés do criador de novos valores e de novas avaliações , surge o conservador dos valores admitidos .

 

 

O filósofo deixa de ser fisiólogo ou médico para tornar-se metafísico ;

ele deixa de ser poeta para tornar-se   “ professor público ” .

 

Ele se diz submetido às “ exigências ” do verdadeiro , da razão ;

mas sob as exigências da razão , reconhece-se muitas vezes forças que “ não são tão razoáveis assim ” : Estados , religiões , valores em curso .

A filosofia torna-se apenas o recenseamento de todas as razões que o homem se dá . . .  para  :   obedecer .

 

 

A filosofia invoca o amor pela verdade , . . . mas essa verdade não faz mal a ninguém :

  ( “ela aparece como uma criatura bonachona que ama suas facilidades e dá sem cessar a todos os poderes estabelecidos

– a segurança de que ela jamais causará a ninguém o menor embaraço , pois ela é apenas , no fim das contas , ciência pura .” )

O filósofo avalia a vida de acordo com sua aptidão a suportar pesos , a carregar fardos .

Esses fardos , esses pesos são precisamente : os valores superiores .

Esse é o espírito de gravidade que reúne num mesmo deserto :

  ” o carregador ”   e   o   ” carregado ” ,  

a vida reativa e depreciada ,

o pensamento negativo e depreciador .

Então , tem-se apenas uma ilusão de crítica e um fantasma de criação .

Pois nada é mais oposto ao criador do que . . .  o carregador .

 

 

Criar é aligeirar , é descarregar a vida , inventar novas possibilidades de vida .

O criador é  legislador  –  dançarino .

A degenerescência da filosofia aparece claramente com Sócrates .

Se a metafísica é definida pela distinção entre dois mundos ,

pela oposição entre essência e aparência ,  verdadeiro e falso , inteligível e sensível ,

é preciso dizer que Sócrates inventa a metafísica :

ele faz da vida alguma coisa que deve ser julgada , medida , limitada ,

e do pensamento , uma medida , um limite , que se exerce em nome dos valores superiores – o Divino , o Verdadeiro , o Belo , o Bem   …

Com Sócrates , aparece o tipo de um filósofo voluntária e sutilmente submisso .

 

 

 

 

Mas continuemos , saltemos os séculos .

.

.

.

Quem pode acreditar que Kant tenha restaurado a crítica , ou reencontrado a idéia de um filósofo legislador ?

Kant denuncia as falsas pretensões ao conhecimento ,  > mas não coloca em questão o ideal de conhecimento ;

denuncia a falsa moral , > mas não coloca em questão as pretensões da moralidade , nem a natureza e a origem de seus valores .

Ele nos critica por termos misturado os domínios , os interesses ;

porém os domínios permanecem intactos , e os interesses da razão : sagrados (o verdadeiro conhecimento , a verdadeira moral , a verdadeira religião ) .

A própria dialética prolonga esse passe de mágica .

A dialética é essa arte que nos convida a recuperar propriedades alienadas .

Tudo volta ao espírito , como motor e produto da dialética ; ou à consciência de si ; ou mesmo ao homem como ser genérico .

Mas se nossas propriedades exprimem nelas mesmas uma vida diminuída ,

e um pensamento mutilador ,

de que nos serve recuperá-las , ou nos tornar seu verdadeiro sujeito ?

Suprimiu-se a religião quando se interiorizou o padre ,

quando ele foi posto no fiel , à maneira da Reforma ?

 

 

Matou-se Deus quando se colocou o homem em seu lugar e guardou-se o essencial , isto é , o lugar ?

 

 

A única mudança é esta :

ao invés de ser carregado de fora ,

o próprio homem se encarrega de pegar os pesos para colocá-los sobre suas costas .

 

 

 

O filósofo do futuro , o filósofo-médico ,

diagnosticará a continuação de um mesmo mal  > sob sintomas diferentes :

os valores podem mudar ,

o homem colocar-se no lugar de deus ,

o progresso , a felicidade , a utilidade podem substituir o verdadeiro , o bem ou o divino –

mas o essencial não muda , isto é , as perspectivas ou avaliações das quais dependem esses valores , velhos ou novos :

 

Convidam-nos sempre a nos submeter , a nos carregar com um peso ,

a reconhecer somente as :     formas reativas de vida        ,      as formas acusatórias do pensamento .


 

 

Quando nós já não queremos , quando já não podemos  ” nos carregar ” com os valores superiores ,

 convidam-nos ainda a assumir   “ o Real tal como ele é ”      

 

  

– mas esse Real tal qual ele é , é precisamente o que os valores superiores fizeram da realidade !

 

 

 

( Mesmo o existencialismo guardou em nossos dias um gosto espantoso de carregar , de assumir ,  > um gosto propriamente dialético que o separa de Nietzsche . )

Nietzsche é o primeiro a nos ensinar que não basta matar Deus para operar a transmutação dos valores .

Na obra de Nietzsche há múltiplas versões da morte de Deus ,

pelo menos quinze ,  todas de uma grande beleza   .

Mas precisamente , de acordo com uma das mais belas , o assassino de Deus é  “ o mais repugnante dos homens ” .

Nietzsche quer dizer que :  o homem torna-se ainda mais feio quando ,

já não tendo necessidade de uma instância exterior ,

proíbe a si mesmo aquilo que lhe proibiam ,

e encarrega-se espontaneamente de um policiamento e de fardos que já não lhe parecem vir de fora .

Desse modo , a história da filosofia , dos socráticos aos hegelianos ,  

continua sendo a história das longas submissões do homem

e das razões que ele dá a si mesmo para legitimá-las .

Esse movimento da degenerescência não afeta somente a filosofia ,

mas exprime o devir mais geral , a categoria mais fundamental da história .

Não um fato na história ,

 mas o princípio mesmo do qual decorrem a maior parte dos acontecimentos

que determinaram nosso pensamento e nossa vida , sintomas de uma decomposição .

Tanto que a Filosofia Verdadeira , como filosofia do futuro , não é nem histórica nem eterna :

ela deve ser intempestiva ,

.

sempre    intempestiva  .

 

 

 

* * * 

Essa distinção não é apenas quantitativa , mas qualitativa e topológica .

Mas a essência da força é a de estar em relação com outras forças ;

e , nessa relação , ela recebe sua essência ou qualidade .

A relação da força com a força chama-se     “ VONTADE ”    .

 

Eis porque , antes de mais nada ,

é preciso evitar os contra-sensos sobre o princípio nietzscheano de Vontade de Potência .

 

 

Esse princípio não significa ( ou ao menos: não significa primordialmente )  que : 

a Vontade  : queira a Potência ou deseje dominar .

 

 

Interpretar Vontade de Potência no sentido de  “ desejo de dominar ”

implica em fazê-la depender de valores estabelecidos :

os únicos aptos a determinar quem deve ser   “  reconhecido ”    como :

 ” o mais potente ”  > neste ou naquele caso , neste ou naquele conflito .

e assim fazendo , desconhece-se a natureza da Vontade de Potência  como princípio plástico de todas as nossas avaliações ,

como princípio oculto para a criação de novos valores não reconhecidos .

A Vontade de Potência , diz Nietzsche , não consiste em cobiçar nem mesmo em tomar ,

mas em : dar e criar.

A Potência , como Vontade de Potência , não é aquilo que a vontade quer , mas aquilo que quer na vontade  ( Dionísio em pessoa ) .

 

 

A Vontade de Potência é o elemento diferencial do qual derivam as forças em presença  e sua qualidade respectiva em um complexo .

Ela também é apresentada como um elemento móvel , aéreo , pluralista .

É por Vontade de Potência que uma força comanda ,

mas é também por Vontade de Potência que uma força obedece .

Aos dois tipos ou qualidades de forças correspondem pois duas faces :  dois qualia da Vontade de Potência , caracteres últimos e fluentes ,  mais profundos do que as forças que deles derivam .

Pois a Vontade de Potência faz com que as Forças Ativas afirmem , e afirmem sua própria diferença :

nelas a afirmação é primeira , e a negação não passa de uma conseqüência ,

como um suplemento de gozo .

 

Mas o próprio das Forças Reativas , ao contrário , é opor-se de saída àquilo que elas não são ,

limitar o outro:

nelas a negação é primeira , e é pela negação que elas chegam a uma aparência de afirmação .

Afirmação   e   Negação são , portanto , os qualia da Vontade de Potência ,

como Ativo   e   Reativo são :   as qualidades das forças .

E assim como a   Interpretação   encontra os princípios do sentido nas forças ,

a   Avaliação   encontra os princípios dos valores na Vontade de Potência .

– Evitaremos , por fim , em função das considerações terminológicas precedentes ,

a redução do pensamento de Nietzsche a um simples dualismo .

 

 

Pois , como veremos , pertence essencialmente   à   Afirmação   ser   “ nela mesma ”   :    múltipla , pluralista  ,

e

à   Negação   ser   ” uma ”  ,  ou :   pesadamente monista  .

Ora , a História nos coloca na presença do mais estranho fenômeno :

as Forças Reativas triunfam , a Negação prevalece na Vontade de Potência !

 

 

Não se trata apenas da história do homem , mas da história da vida , e a da Terra ,

ao menos sobre sua face habitada pelo homem .

Em toda parte , vemos o triunfo do   “ não ”   sobre o   “ sim ” , da Reação sobre a Ação .

 

 

Até a vida torna-se adaptativa e reguladora , reduzindo-se às suas formas secundárias :

nós nem mesmo compreendemos o que significa AGIR .

Mesmo as forças da Terra se esgotam sobre essa face desolada .

 

Nietzsche  chama  essa  vitória  comum  das  Forças  Reativas  e  da  Vontade  de  Negar  de :

 “ NIILISMO ”  – ou    triunfo  dos  escravos   .

De acordo com ele , a análise do NIILISMO é o objeto da psicologia ,

desde que se compreenda que essa psicologia é também a do cosmos .

Parece difícil , para uma filosofia da Força ou da Vontade , explicar como :

as Forças Reativas , ou  como os   “ escravos ” ,   os  “ fracos ” :  prevalecem .

Pois se eles prevalecem formando , todos juntos , uma força maior do que a dos fortes ,

não dá para perceber o que mudou , e sobre que se pode fundar uma avaliação qualitativa .

 

Mas na verdade : os fracos , os escravos não triunfam pela soma de suas forças ,

mas pela subtração da força do outro : eles separam o forte daquilo que ele pode .

Eles triunfam não pela composição de sua Potência , mas pela Potência de seu Contágio .

Eles arrastam todas as forças para um devir reativo .

É isso a  “ degenerescência ” .

 

 

 

 

Nietzsche mostra desde então que os critérios da luta pela vida , da seleção natural ,

favorecem necessariamente os fracos e os doentes enquanto tais  :

os  “ secundários ” ( chama-se doente  a uma vida reduzida a seus processos reativos ) .

Com ainda mais razão , no caso do homem , os critérios da história favorecem os escravos como tais .

 

 

 

 

É um devir-doentio de toda a vida ,

um devir-escravo de todos os homens que constituem a vitória do niilismo .

 

 

 

 

 

Evitaremos também os contra-sensos sobre os termos nietzscheanos  “ forte ”  e  “ fraco ”,  “ mestre ”   e   “ escravo ” :

é evidente que o escravo não deixa de ser escravo quando toma o poder , nem o fraco deixa de ser um fraco .

As Forças Reativas , mesmo prevalecendo , não deixam de ser reativas .

Pois , segundo Nietzsche , trata-se em todas as coisas de uma tipologia qualitativa : trata-se de baixeza e de nobreza .

Nossos mestres são escravos que triunfam num devir-escravo universal :

o homem europeu , o homem doméstico , o tolo …

 

Nietzsche descreve os estados modernos como formigueiros

onde os chefes e os poderosos prevalecem por sua baixeza , pelo contágio dessa baixeza e dessa tolice .

Seja qual for a complexidade de Nietzsche , o leitor – “ capaz ” –  advinha facilmente em que categoria

( ou seja , em que tipo )   ele teria classificado a raça dos   “ mestres ” concebida pelos nazistas .

 

 

 

 

É somente quando o niilismo triunfa  que a Vontade de Potência deixa de querer dizer  :

  “ CRIAR ”

 e   passa a significar :

querer a potência , desejar o domínio

( e portanto atribuir-se ou fazer-se atribuir os valores estabelecidos , dinheiro , honras , poder … ) .

Ora , essa Vontade de Potência é precisamente :  a do escravo  

é a maneira pela qual o escravo ou o impotente concebe a potência : a idéia que ele tem dela   e   que ele aplica   >  quando triunfa  .

Um doente pode muito bem dizer : “ ah , se eu estivesse bem de saúde , eu faria isto ”    –

e talvez ele o fizesse  –   mas seus projetos e concepções são ainda os de um doente , nada mais do que os de um doente .

É a mesma coisa com o escravo e sua concepção da maestria ou da potência .

É a mesma coisa com o homem reativo e sua concepção de ação .

Por toda parte , a reversão dos valores e das avaliações , por toda parte as coisas vistas pelo seu lado pequeno ,

as imagens revertidas como no olho de boi .

 

Uma das maiores frases de Nietzsche é esta :

“  É preciso sempre defender os fortes contra os fracos . ”

.

.

.

(1) – Considerações intempestivas, Schopenhauer educador, § 3.

(2) – Cita-se por vezes o texto intitulado “O insensato” (Gaia Ciência, III, 125) como a primeira grande versão da morte de Deus.

Não é assim: O viajante e sua sombra contém um admirável relato intitulado “Os Prisioneiros”.

Esse texto possui misteriosas ressonâncias com Kafka.

 

 

 

 

 

Nietzsche, par Gilles Deleuze: Paris, PUF, 1965 (13ª edição, 2006), pp. 17-27. Tradução minha.

Francisco Fuchs

 

 

 Numa tentativa burra de interpretar Nietzsche como inspirador do Nazismo ,

ou qualquer outro tipo de falta de conhecimento e  profundidade ao estudá-lo e compreendê-lo –

seus oponentes esquecem  oportunamente que , sob este distorcido e ” contrário ”   ponto de vista ,

poderíamos também interpretar seus princípios como estruturadores de qualquer religião  e /ou  sistemas totalitários de governo  >

exatamente porque a interpretação correta é o contrário e como tal ,  representa uma ameaça.

 

 

 

Geralmente , este tipo de interpretação ou burra ou oportuna ,

é feita pelos interessados na produção dos rebanhos de tolos e submissos que sua Vontade de Poder e Dominação necessita . 

 

 

 

Outra grande peculiaridade da Falta de Hipocrisia  é NÂO excluir jamais o fato documentado  de que o Nazismo ,

alimentando-se  fartamente desta Vontade de Poder – totalmente contrária à Vontade de Potência nietzschiana  serviu-se largamente de outras fontes ,

esbaldando-se na filosofa cristã , esta sim, totalmente rejeitada por Nietzsche : que a ela se referia como a Besta Loura que era , inicialmente ,

uma metáfora que se referia ao leão , o mamífero felino predador , dito rei dos animais .

Neste sentido , a expressão Besta Loura foi usada primeiramente em Assim Falou Zaratustra [elaborado em quatro partes, entre 1883 e 1885] .

 

 

Nietzsche comprava o processo de cristianização a uma espécie de tentativa de domesticação de animais .

Os animais domesticados , domados , na verdade não têm seu comportamento aprimorado ;

antes , são enfraquecidos pela ação do medo , da dor , das feridas , da fome e , assim , tornam-se bestas doentes ; sofrem de depressão .

O mesmo aconteceu com os homens que os padres e pastores se encarregaram de domesticar   [catequizar] :

Na Idade Média , quando a Igreja era , sobretudo, um zoológico… – e assim permanece ,

pessoas  eram caçadas em toda parte ; e assim :  foram domesticadas .

Tornaram-se caricaturas de homens , abortos: foram informados e acreditaram que eram pecadores ,

presos em uma jaula feita de todo tipo de terríveis conceitos .

E ali permanecem: doentes , miseráveis , maldosos contra si mesmos ;

cheios de ódio e repulsa pela alegria de viver , cheios de desconfiança contra tudo o que seja forte e feliz  : Nazismo .

 

 

Esclarecendo aos mal informados , Nietzsche jamais questionou o homem Jesus ou sua mensagem,

em suas duras críticas , não mirava Jesus ; atacava , isto sim ,  as Igrejas , o cristianismo instituído, católico ou luterano ou o que for.

 

 

 

Atacava sim , o circo de horrores  e absurdos doentios que criaram em torno de um homem que como alguns em nossa historia , foi especial :

Eu levanto contra a Igreja Cristã [católica, luterana e assemelhadas] a mais terrível de todas as acusações:

[culpada] da maior corrupção já concebida, com seu ideal de anemia, de santidade, drenando todo o sangue,

todo o amor, toda a esperança de vida; a cruz é a marca de recordação da maior conspiração subterrânea que jamais existiu:

contra a saúde, a beleza, contra tudo que proporciona bem-estar, contra a coragem, contra a elegância da alma,

contra a vida em si mesma .

 

 

[ Nietzsche ─ Anticristo Apud RAVENSCROFT, 1982 ]

 

 

 

 

.

 

Fy

46 Comments »

  1. Pra começar a comentar Nietzche , nada como uma boa frase de Orwell:
    ‘Numa época de mentiras universais – dizer a verdade é um ato revolucionário.’
    E Nietzsche foi um grande revolucionário . Nada mais deleuziano do que Nietzche. A verdade é que filósofos mais contemporâneos como Deleuze jamais precisaram se afirmar perante nenhuma religião. As afirmações de Netzsche foram proféticas e o mundo nunca esteve mais escandalosamente próximo de suas conclusões.
    Abraço a todos e um ótimo 2011.
    Rodrigo

    Comment by Rodrigo — 29/12/2010 @ 5:20 AM

    • Oi Rodrigo, feliz, feliz 2011!

      Ahhhh ondeando Orwell…-

      A linguagem política dissimula para fazer as mentiras soarem verdadeiras e para dar aparência consistente ao puro vento.
      ( George Orwell )

      e é tão lindo o vento.

      Como o ser humano é otário, não ?

      Eu fico aquicomigo, pensando… – cada vez q eu leio certos absurdos, como comparar Honra com Adoração, Segregalismo com Moral…. e mais uma porção de refrãozinhos by lambs , eu mais me convenço que a mediocridade é mesmo a filha preferida da Ignorância .
      bytheway….

      vale pra ilustrar :

      Os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros.
      ( George Orwell )

      bjs em todo mundo aí, doctor.
      Fy

      Comment by Fy — 30/12/2010 @ 11:51 PM

      • :[ não tenho a menor idéia pq os vídeos saem assim… – do jeito q vai sair …. – mas não faz mal… ninguem liga pra mim e me ajuda a consertar…. ]

        Comment by Fy — 30/12/2010 @ 11:51 PM

  2. Oi pessoas, será que vem mais chuva ?
    Nossa , como tá abafado.
    É isto sim, Rodrigo, Nietzsche é bem atual. E orwell foi muito bem colocado .
    A grande paixão de Nietzsche, além da Lou Salomé, era a vida em sua total liberdade. Ele ficou admirado pela obra de Artur Schopenhauer, especialmente no que diz respeito a idéia de vontade humana. Mas não era tão pessimista como o véio Arthur, mas sim crítico da moral calcada na hipocrisia e na fraqueza.

    A forma de liberdade mais próxima do ser humano nessa vida, segundo ele, estava na arte e na música, daí a sua amizade e admiração por Richard Wagner, que logo depois se transformou em ódio. O motivodo quebra pau , segundo Nietzsche, foi o fato do músico, nos seus últimos anos, ter se voltado para a filosofia da fraqueza, o que foi materializado no estilo da música.

    Esse grande polemizador “procurou denunciar todas as formas de renúncia da existência e da vontade. É esta a concepção fundamental de sua obra Zaratustra, “a eterna, suprema afirmação e confirmação da vida”. O eterno retorno significa o trágico-dionisíaco, dizer Sim à vida, em sua plenitude e globalidade. É a afirmação incondicional da existência”.

    A tal vontade de potência tá mais do que bem explicada, a morte de deus – melhor ainda – aliás estas religiões podiam ter caprichado mais nesta deusarada… eu pelo menos acho este assunto de Alá, Jeová, morre daqui, morre de lá, meio que saturado. Haja visto a reação do mundo às leis divinas do Irã.
    Pode ser que eu me engane, mas visando a grande maioria, o ser humano anda cansado disto tudo .

    abraço aê,
    Alexandre

    Comment by Alexandre Golaiv — 29/12/2010 @ 11:11 AM

    • Pode ser que eu me engane, mas visando a grande maioria, o ser humano anda cansado disto tudo .

      Olha Alexandre, nãoseinão.

      Eu acho que os fortes , precisam mesmo tomar cuidado com os fracos. … ainda.

      Olha a seu redor…

      Olha os governantes.

      Olha os crimes Alálaô.

      Olha a pastorada crente , [ui]

      Os meninos-bomba.

      O estado da África…. da Índia….

      A “divinização” boçal de qualquer otário ou de qualquer idéia esperta….

      Não há mais a menor preocupação nem com a qualidade …. – diante da expanção demográfica, a “produção” de mão de obra imediata é muito mais importante do que a “qualidade” dos currais .

      As “linguagens” apenas estão se aprimorando , mas não diferem do “discurso” primordial.

      Qto “maior” o rebanho – mais grana no bolso,aviõezinhos pra brincar, mais ouro nos cofres, mais sapatinhos vermelhos e ovelhinhas pra se churrascar.e etcetalz….

      É este o deus que não pode morrer .

      bj
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 12:03 AM

  3. Que surpresa, Fy, Nietzsche assim de bandeja numa noite de chuva, é bão demais.
    Vamos falar de Nietzsche, deleuziando sempre porque agente gosta.
    Lí o Rodrigo, o Alexandre, vou dar um pitaco aqui.
    Vou usar um pouquinho da genealogia da moral, já que o Alexandre levantou o quiprocó sobre a “verdade”.
    De alguma maneira “rizomática” hehe,tem a ver com todo esta explicação sobre forças ativas, forças reativas, a aversão do Nietzsche pelo cristianismo,
    ou qualquer outra embromação que tenha como finalidade produzir servos alienados e produtivos.Vou tentar dar os espaços com os traços.
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    A crítica nietzschiana à noção de verdade apoia-se, justamente, neste ponto: a afirmação de que é impossível a correspondência entre a linguagem (qualquer que seja ela) e o mundo real. Num belíssimo texto denominado Introdução teorética sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral, ele desenvolve as principais reflexões sobre essa questão.
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    O argumento central do texto nietzschiano é que qualquer palavra adquire a dimensão de conceito – que é a ferramenta de qualquer forma de pensamento racional – quando :

    “ abandona e desconsidera as diferenças singulares entre as coisas e os acontecimentos do mundo”.

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    Por exemplo, quando pronuncio a palavra “folha”, todos imaginam que o som dela se refere a alguma realidade empírica.

    Entretanto, para poder traduzir todas as folhas reais, tão diferentes umas das outras, por esse som unitário e invariável, é preciso jogar fora todas as características singulares que tornam cada folha uma realidade única, incomparável, intraduzível.

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    O “conceito” constrói um esqueleto “descarnado” do mundo.

    Esse esqueleto é um signo de reconhecimento, quer dizer, sua utilidade é possibilitar a comunicação entre os homens, diante das utilidades da vida prática, das necessidades de sobrevivência.
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    Todo o contra-senso é pretender que possa haver alguma correspondência que não seja meramente convencional, portanto arbitrária, entre o tal signo e a realidade
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    A partir de raciocínios como esse, Nietzsche conclui que “não há critérios intrínsecos” para avaliar se uma enunciação é verdadeira.

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    Dependendo do “critério particular e convencional adotado” , qualquer uma poderá ser verdadeira ou falsa.

    Mais do que isso: os critérios de verdade, quaisquer que sejam, estão sempre ligados a certas forças que detêm o poder e que impõem uma interpretação particular, própria, como se fosse universal.
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    Então, taí , “qualquer” verdade sempre traduz a relação dos homens com o mundo, a forma como se apropriam e se utilizam das coisas; seu ângulo de visão, perspectiva, está sempre articulado por códigos: interpretações de mundo dominantes, que são as forças que dão forma a tudo o que os homens comuns vêem, tudo em que acreditam.

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    As verdades são, pois, segundo Nietzsche, “um conjunto de relações humanas poeticamente e retoricamente erguidas, transpostas, enfeitadas, e que, depois de um longo uso, parecem a um povo: coisas firmes, canoniais e constrangedoras: as verdades são ilusões que nós esquecemos que o são”.

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    Essa é a razão pela qual a genealogia não pode fundar-se sobre “um critério” de verdade.

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    A vida: critério dos critérios e valor dos valores –

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    Se é preciso uma crítica radical dos valores, se é necessário avaliar o valor de todos os valores humanos, sem ter mais à mão, sem utilizar , um critério de verdade, então é fundamental um outro critério que seja válido e inquestionável, que esteja acima de todos os outros.
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    Esse critério, segundo Nietzsche, é a VIDA. Só este critério pode decidir se um valor é bom ou ruim. Como?

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    Partindo do critério Vida, só se podem avaliar como bons os valores que estiverem servindo à sua expansão, intensificação e enriquecimento.

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    E como ruins aqueles que estiverem criando condições para sua despotencialização, enfraquecimento, empobrecimento.
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    Isso significa considerar Vida como nunca se fez antes. E não se faz ainda.

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    É preciso diferenciar Vida de Sobrevivência.

    Grosso modo, a Sobrevivência descreve um empobrecimento da vida; quando meramente sobrevivemos, isso quer dizer que estamos vivendo de forma bastante precária, incipiente.

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    A Vida é um fluir de intensidades que se apropriam de mundo / e se expandem em novas intensidades, num movimento crescente e inesgotável.

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    Sem dúvida, ela engloba a sobrevivência, mas como sua dimensão mais baixa, seu alicerce: esse funcionamento adaptativo que pode ser o ponto de apoio para movimentos de maior expansão, criativos, transformadores.

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    A Sobrevivência depaupera a vida “quando” a reduz a seus horizontes utilitários, toscos.

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    Por isso, diante do critério Vida, um ato suicida pode até ter um valor importante, na impossibilidade de uma sobrevivência mesquinha expandir-se numa vida mais potente: por exemplo, um prisioneiro político que se suicida, ao se saber fadado a uma morte lenta e humilhante nas mãos dos inimigos.

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    Há, também, ocasiões em que a luta pela sobrevivência pode gerar valores de vida bastante preciosos: por exemplo, quando uma pessoa com uma doença grave é levada, na luta pela sobrevivência, a se defrontar com a morte e, a partir daí, a reavaliar a própria vida.

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    É importante ressaltar que o valor Vida implica o valor Morte como sua condição.

    Uma vida só adquire plena potência se é capaz de se desdobrar numa morte e num renascimento constantes, ou seja, a perda, a privação, o ocaso, são ocasiões de fortalecimento e de enriquecimento de tudo que, de vivo, floresce a partir daí.

    Mais do que isso, a morte é, para o herói trágico, “o julgamento, livremente escolhido”, que dá valor à existência.
    Aliás o André, se não me engano colocou uma vez uma oração indígena muito bonita sobre como se preparar para a morte.

    Assim, nos conta em que medida o valor Vida implica o valor Morte, o que reforça a idéia de que, no vocabulário nietzschiano, Vida e Sobrevivência jamais se confundem, pois se, por um lado, Vida implica Morte, por outro, Sobrevivência e Morte são valores antagônicos.

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    (Este fator é muito importante na filosofia de Nietzsche, aqui em minha opinião ele demonstra claramente que o medo da morte é uma das nóias mais estúpidas do homem em geral. è justamente o adubo para que a sementinha do poder via religião possa florescer com seus espinhos.Castanheda também evidencia a desmoralização deste medo.)

    Como conseqüência, jamais se confundem, também, quaisquer avaliações feitas a partir de valores vitais : com aquelas feitas a partir de valores de sobrevivência.

    No primeiro caso, o que é avaliado é se as forças em foco geram movimentos de expansão, intensificação, potencialização / ou de coartação, confinamento, mutilação , despotencialização da vida considerada;

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    no segundo caso, avalia-se o quanto determinados processos são adaptativos, capazes de garantir, em maior ou menor grau, a sobrevivência.

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    Aí, por exemplo, já temos um cruzamento significante entre as idéias do Nietzsche e do Deleuze.

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    É importante ressaltar que a genealogia, ao fazer a crítica dos valores morais, não funda uma nova moral, como pode eventualmente parecer a algum olhar menos esperto.

    Considerar ruins os valores que despotencializam, enfraquecem e empobrecem a vida não significa submetê-la a um crivo, selecionando uma parte boa e uma parte má, como fazia a moral.

    Trata-se, sem dúvida, de uma seleção, mas de outro tipo e com outra finalidade:

    proteger a vida contra todos os valores que, por operarem um “tipo” de seleção moral, a enfraquecem e a empobrecem.

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    Nada é mais “cristão” huahuahua – do que : Lula “pai” dos Pobres ou Dilma “mãe” dos Pobres”.

    Ou que : dos Pobres será o reino dos céus / e os da terra : do Lula, Lulinha, Dilmão, etc dos papas papadores de criancinhas, vestidos de ouro da cabeça aos pés, dos pastores das doces ovelhas, dos governantes e suas teocracias “divinas” que só elas, e assim caminha a humanidade.

    Beijo a todos
    Tio Gus

    Comment by Gustavo — 29/12/2010 @ 12:40 PM

    • De alguma maneira “rizomática” hehe,tem a ver com todo esta explicação sobre forças ativas, forças reativas, a aversão do Nietzsche pelo cristianismo,
      ou qualquer outra embromação que tenha como finalidade produzir servos alienados e produtivos.

      oh Jesus…. – Cristianismo ?

      ….WHAT IS ?????

      bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 12:06 AM

  4. Fy, me empolguei aí nietzschiando e esqueci, fabuloso este filme!
    Parabéns pela escolha e pelo post também , querida.
    beijo
    tio Gus

    Comment by Gustavo — 29/12/2010 @ 12:48 PM

    • É da estante do Tocayo.

      bjs

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 12:07 AM

  5. Oi Fy, muito bacana as palavras do Deleuze.
    Eu recomendo a todos uma boa dose de Nietzsche por dia, e porque não de super-homem? De super-humanos, no sentido humanitário da palavra.
    Voce sabe que eu e sua mãe tivemos um trabalho intenso neste natal. Presenciamos situações indiscritíveis de desumanidade. Não é possível ajoelhar diante disto, e nem qualquer outro tipo de “bondade” que não seja a de colocar a mão na roda e se fazer valer como ser humano.
    Não há gritaria, aleluia ou oração que alimente uma criança desnutrida de todos os tipos de alimentos essenciais pra que um ser se desenvolva, incluindo um pouco amor: humano. Calor, abraço, leite e carinho.
    Como disse o tio Gus, “sobreviver” é vergonhoso e mesmo assim nem isto estamos enchergando debaixo de nosso nariz, ao lado de nossas casas.
    Aos que estão ajoelhados, recomendo que se levantem ,tenham um mínimo de vergonha e comprem um mapa do mundo. Com certeza encontrarão o endereço da realidade.
    Beijo, Bel.

    Comment by Maria Izabel — 29/12/2010 @ 2:17 PM

  6. Eu vou comprar Viagara. Acabei de crer que estou precisando.
    Parabéns pelo blog. Incentiva.
    Parado no tempo, cansado da vida.

    Comment by Anônimo — 29/12/2010 @ 2:43 PM

  7. Em toda parte , vemos o triunfo do “ não ” sobre o “ sim ” , da Reação sobre a Ação .

    Concordo embora não curta muito Nietzsche.
    Mas,uma força pro moustache:

    BEIJO
    Marianne

    Comment by Marianne — 29/12/2010 @ 2:54 PM

    • Just say yes just say there’s nothing holding you back

      It’s not a test nor a trick of the mind :

      Only love

      linda – linda – Marianne!

      Eu tentei colocar – mas tem este lance de “vevo” agora no youtube… e eu uso o vodpod – aliás tudo que se coloca aqui sai no vodpod – mas nos comentários… sei lá se tem algum jeito…. mas não faz mal : o legal é colocar!

      Bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 12:15 AM

  8. Comment by Fy — 29/12/2010 @ 9:40 PM

  9. Excelente post, lindíssimo o filme e a mensagem.

    E salve Nietzsche,como diz a Bel, uma pílulazinha por dia seria um remédio considerável pra o atual estado da humanidade, nossa terra, nosso mundo.

    O resto, moçada, é mediocridade, é ovelhice como diz o Gustavo.

    Mas o moustachão não é fácil de compreender não. Ainda mais por um ser – produto, um condicionamento bípede, substrato genérico e despersonalizado, que a cada dia mais aumenta e prolifera.

    Segundo Nietzsche, não há o mundo e o ser: não há linguagem e ser: o mundo é o mundo do ser: o ser é tão somente um ser de linguagem, uma pele de linguagem cobrindo o caos formatado por seus movimentos vitais, sedutivos e em circulação, em troca e permissões, em crença e riso, em dor e suor: para nada, mas ainda assim em movimento e ânsia de significado.

    O ser não pode ver, ouvir, tocar, pensar ou viver nada mais que um mundo formatado por ele: Nietzsche sentiu que as camisas de força de certa lógica e do cristianismo [nossa literatura central, ficção alienada aparecendo como a realidade], fundamento da ocidentalidade como uma tribo, é somente palavra sobre palavra, crença sobre crença, imaginário sobre imaginário, pele sobre caos: outras palavras criariam outro mundo, outras palavras, outra ação, outro homem, outra vontade, outra sedução livre de um não aparecer monstruoso.

    Por isso Nietzsche não é um Filosofo: aquele que é “amigo da sabedoria”, aquele que é “companheiro do pensamento”, aquele que “desenvolve a reflexão e o conceito”, “aquele que guia”:

    Nietzsche é um Escritor:

    aquele que é, antes de tudo, um Libertino; aquele que se libertou do mundo enquanto realidade natural, realidade inescapável: somos, nós e o mundo, linguagens materializantes que podem criar outras linguagens, outros mundos.

    O Filosofo tem um compromisso com o conceito que o Escritor, enquanto Libertino, não tem nem pode ter:

    o conceito adora se agarrar ao natural, ao eterno, ao universal, ao Estado;

    e o Filosofo, enquanto Escritor, vive para dissolver, vive para martelar, desmantelar, vive para discordar, vive para tornar a sedução uma metáfora de destruição e clara criação: vive para não se satisfazer, vive para re-verter, vive para per-verter, vive para não crer e, acima de tudo, para não solucionar, mas pôr em êxtase aquilo que se vive somente como unidimencionalidade [diferente da literaturazinha brasileira com seus probleminhas de “classe média”].

    E ressalto que nós, seres da ocidental perversidade, somos seres literários por excelência [ficção sobre ficção]: nosso eixo é ficcional: nele estão verdadeiros e legítimos personagens literários (CRIAÇÕES DA PALAVRA E NÃO DO MUNDO EM QUE SE VIVE ), como Sócrates, Deus, Lucifer, Jonas, Jó, Jesus, Maria, Paulo, Dante, Quixote, Hamlet, Romeu, Iago, Fausto, Raskolnikov, Josef K, Bloom, Marcel:

    esse eixo ficcional formata nossa existência: eixo de palavras, imagens, crenças, literatura em sua mais profunda essência: é daí que advém nosso espelho, nossa carne, nosso desejo, nosso sonho.

    E Nietzsche sente, percebe, toca pela primeira vez (se esquecermos o maravilhoso Schopenhauer), um mundo como virtualidade, como um tecido muito fino cobrindo o caos, que cada cultura cobre ao seu bel desejo e crença.

    E para entender, cortar, dissolver e remontar esse tecido-universo formatado por seduções e trocas que se apresentam a nós alienadas e revertidas numa irreversibilidade metafísica, Nietzsche intui que somente a palavra pode empreender essa aventura que o homem-comum aventura-se todo dia sem compreender:

    ele, O “HOMEM-COMUM” cria o mundo “NÃO COM A SUA EXISTÊNCIA” , MAS COM “LINGUAGENS” , as “linguagens” das trocas e das “aceitações”, e essas mesmas “linguagens” se tornam “mundo”.

    São essas “linguagens” postas em movimento, im-postas como realidade, sedução e troca que vemos como produção, circulação e consumo, que exigirão a ação como princípio do ser: trabalho é: rede de crenças postas em movimento.

    O real, contra-feito de linguagem, irrompe em erupção, vindo desde o caos até os sentidos e a Razão, numa existência que nos é conhecida como palavra.

    Por sua vez a palavra é a erupção do real, do real nos aparecendo como sentido.

    O real se oculta na palavra / a palavra des-vela o real: linguagens (o real/a palavra) que se roçam se penetram, se lambem, se dissolvem para dentro: essa circulação é a fonte mesma da práxis, daquela que nos aparece como real:

    nós nos alimentamos desse circuito: a energia do trabalho que cria o mundo e nos aparece enquanto práxis advém de uma troca, de uma circulação de significados que, alienados, criam o ser.

    Comment by Renato — 29/12/2010 @ 11:53 PM

    • Ai, tá louco, Renato… isto é um post!
      loveyou, – cada amigo q eu tenho, não ?

      ele, O “HOMEM-COMUM” cria o mundo “NÃO COM A SUA EXISTÊNCIA” , MAS COM “LINGUAGENS” , as “linguagens” das trocas e das “aceitações”, e essas mesmas “linguagens” se tornam “mundo”.

      q pena.

      uma vida…..

      bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 12:17 AM

  10. CONTINUANDO:

    Quando “conseguimos” ler Nietzsche percebemos clara e claramente a possibilidade do devir, a possibilidade de que o mundo que se dissolva em possibilidades plásticas de mudança, de revolução, de mutação.

    Não precisamos mais esperar as “leis sociais” ou as “leis da natureza”: basta-nos a “vontade de poder”, a “vontade da palavra”, o sentido da consciência e do mundo enquanto linguagens em modificação e resistência.(aqui entendemos resistência deleuziana… nós já exploramos este tema em trocentos fins de tarde ahahah)

    Essa resistência somente a palavra pode se propor a dissolver. “Derrubar ídolos”, como diria Nietzsche; com “verdades sangrentas”, com martelo e fogo.

    O Estado tem medo daquele que pensa: (entenda Estado: Igreja, Poder, etc…)

    e o Estado não somente como governo, mas o Estado como uma síntese viva do aparecer da produção.

    O medo à reflexão que nega, dissolve, movimenta, apavora praticamente todo mundo.

    O vosso filisteismo é visceral, carnal, muscular, epidérmico e lógico:

    sentimos medo de toda sombra que se põe a pensar, que se põe a seduzir, que põe a sedução no lugar da produção.

    Dizemos: O “mundo ocidental” é somente uma tribo entre tribos, cada uma criando um universo à sua imagem e diferença!

    Dizemos: Jesus nunca existiu como homem, como história e lugar. É somente uma criação mítica, literária!

    Dizemos: Deus não somente está morto como jamais existiu ou existirá a não ser enquanto imaginário de certas tribos, sendo, isso sim, o personagem literário central do nosso teatro vivêncial!

    Dizemos: O mundo, a realidade, é somente um “programa” tribal!

    Dizemos: O homem não existe, é outra ilusão dessa tribo ocidental, construído com a trama dos materiais ficcionais dos outros personagens através do tempo!

    E poderíamos dizer muito mais!

    Mas tudo seria reencaminhado à nossa lógica: reencaminhado ao costumeiro sentido apaziguador, reacionário e imobilizador: tudo é consumido, apagado, assimilado pela recepção daquela lógica produtiva que aceitamos como verdadeira.

    São palavras! Dizem uns. Somente palavras, dizem outros. Um professorzinho “querendo se amostrar”. E ninguém pensa, ninguém sangra, ninguém se move num mundo trans-tornado em palavra imóvel: SOMENTE ASSIM A PRODUÇÃO, A CIRCULAÇÃO, O CONSUMO E A BURRICE SAEM “INTOCADOS”.

    Ler Marx é inútil! Ler Nietzsche é inútil! Ler Foucault é inútil! Ler Baudrillard é inútil! “Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida – ninguém exceto tu, só tu”, nos diz um Nietzsche já cansado de falar para ninguém.

    Ler Nietzsche é trilhar um cominho diferente do “crente”, do “crente” em tudo:

    Nietzsche instaura uma reflexão onde a autodeterminação é o sentido de uma verdadeira vida.

    Ler Nietzsche não é um aprendizado, um lazer, uma opção: é uma das poucas saídas ainda abertas dentro da estranha hegemonia da mais cruel e cada vez mais fascista realidade.

    Nietzsche não é uma saída ou um princípio.

    Nietzsche é a palavra com o poder e a vontade que somente ela possui para revolucionar o mundo.

    Mas isso já não conseguimos mais vislumbrar, e mesmo alguns de vocês irão perguntar se queremos mudar o mundo somente com palavras.

    É uma pena, mas isso é o nosso mundo! Mundo democrático que aos poucos vai se contorcendo, se torcendo para dentro de si mesmo fazendo aparecer, fazendo se romper de dentro da sua pele virtual os espinhos, as traves, os pilares fascistas da sua interioridade, e ninguém pode fazer nada porque todos nós aceitamos ser apenas um simulacro da produção que nós mesmos criamos e já não sabemos mais que a criamos.

    Para nós a sedução é somente uma ração de cobaia no laboratório do mundo.

    E essa ração, e essa Razão, para nós é sempre suficiente.

    É uma pena, mas ainda nos resta muito. Basta ter coragem. E Nietzsche é, sempre, um bom começo.

    E um bom começo de ano também.

    “inda bem que aqui, (pelo menos os que eu conheço e já lí), agente “sangra”.

    beijo moçada, e sol again.

    (tio) Renato

    Comment by Renato — 30/12/2010 @ 12:09 AM

    • sol, again.

      and forever.

      —————————————————–

      “inda bem que aqui, (pelo menos os que eu conheço e já lí), agente “sangra”.

      Agente dança, mon cher!

      E Deleuze é isto…. dança !

      Ah…. e eu não conheci e não dei um abraço bem forte neste cara!

      E, como diz o Gustavo, é bom falar em Deleuze, um pensador sempre vinculado aos tais “movimentos pós-estruturalistas”,

      categorizações que ele próprio questionava pelo que trazem, ainda, da visão e luta pelo idêntico. pelo idêntico…. e pelo idêntico.

      Mas isto … é outro post´.

      bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 1:55 AM

  11. Eu já venho já -já.
    Assim q eu conseguir sentar pra ler e escrever.

    Quem mora por aqui meu conselho é não sair de casa.
    Não dá.

    Judiação – judiação das praias.
    Mas isto é assunto pra outro post.

    Pra 10 posts.
    aiaiai.

    bj pra todo mundo
    Fy

    Comment by Fy — 30/12/2010 @ 4:00 AM

  12. A melhor frase (uma das) do Nietzsche pra mim é esta:

    Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.

    Imagine quando estes caras voltam das guerras. Eu acho que o cara nunca mais se recupera.
    Eu, sinceramente, depois que conheci minha sogra, não virei monstro por pura, treinada,disciplinadamente, trabalhadamente Potência de Vontade de Potência.
    A Ka tomava “2” pilulas por dia huahuhauhauhauuaha!

    Mas valeu.. o treino, 2 dias sem pílula e meu garotão tá lá. Doido pra conhecer este marzão daqui.

    Tô feliz, galera e desejo tudo isto e este tantão de felicidade procês também.
    E olha cara, foi a maior que eu já senti em toda minha vida.
    beijo meu e da Ká, té já no telhado mais chic do mundo!

    Gab

    Comment by Gabriel — 30/12/2010 @ 4:14 AM

    • Ah…. já festejamos isto !

      Vai ser o nenem do ano !

      Feliz – Feliz e Feliz .

      Feliz ano novo.

      bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 2:13 AM

      • té já no telhado mais chic do mundo!

        Comment by Fy — 31/12/2010 @ 2:14 AM

  13. Nunca pergunte a uma bailarina se ela gosta de Nietzsche ou não.

    Aliás vou pregar este post na porta do nossa escolinha, rsrsrsrsrsrsrsrs.

    Pra mim é Nit, somos íntimos, amigos de longa data. Eu até pensei que já tinha compreendido tudo, até que fui mãe.
    Aí então…. sentí muita coisa, que até então pensava ter compreendido.
    Música, Nietzsche – corpo – alma, uma dança única, onde a Vontade de Potência espalha-se em e por tudo o que somos.
    Porque tudo: somos.
    Espero que voces gostem, faz tempo que eu tenho isto e tem a ver com o comentário do Renato, que eu lí com o André no colo, dando comida pro Daniel… salvem-me!
    (vou colocar pontinhos)
    .
    .
    .

    (errei tres vezes!)

    ..
    .

    Penso, logo existo” (1637), essa foi a base do saber moderno, lançado pelo dualismo substancial de Descartes. Para Descartes a subjetividade era constituída por uma unidade de duas substâncias de natureza distintas: 1) alma (intelectualidade, razão, consciência, mente) e 2) corpo (substrato material).

    “‘Eu sou corpo e alma’ – assim fala a criança. E por que não se deveria falar como as crianças?”, essa foi a ironia de Nietzsche dentre outras várias, lançadas pelas primeiras palavras de Zaratustra (1885), tempos depois, devidamente bem elaborada em sua metralhadora giratória contra o saber moderno, a obra “Para Além de Bem e de Mal (1886)”

    Nas palavras de Zaratustra, retrata-se em tom sarcástico, aos desprezadores do corpo, a ingenuidade, algo como uma “brincadeira de criança”, a possibilidade de conceber a separação entre corpo e alma (razão e emoção; corpo e mente).

    Em “Para Além de Bem e de Mal”, Nit abala em tom mais sério, sem perder a ironia, aponta:

    “Alguma superstição popular proveniente de tempos imemoriais (como a superstição da alma que, como superstição do sujeito e do eu ainda hoje também não cessou de provocar disparates), algum jogo de palavras, talvez, uma sedução de parte da gramática, ou uma ousada universalização de fatos muito estreitos, muito pessoais, muito humanos, demasiado humanos.”

    Nesse pensamento de Nit, expõe-se o quão grosseiro (característica das brincadeiras de criança) é o intelectualismo da metafísica que se faz enquanto um saber superficial, simplista e filosoficamente imaturo.

    Para Nit é impossível extrair do processo de pensamento, da consciência, do “ser”, algum “eu” que, de tal maneira, possa ser capaz de dizer que pensa, ou como Descartes, “Penso, logo existo”. Revela-se enquanto uma fantasia produzida pelas funções lógicas e gramaticais a tentativa de apreender uma unidade de consciência, de conhecimento, em seu caráter puro.

    É eliminar essa ingenuidade do “ser” que Nit aponta como superação das correntes da filosofia dogmática. – É nisso que consiste o pensamento crítico em Nit, despertar-se, ser sensível a captação da consciência que se revela enquanto processos “contaminados” e não puros. Ser consciente em Nit é saber que a consciência anda sobre o plano de fundo do desconhecido.

    A idéia do “eu penso” nos leva a uma série de falsificações criadas pelo próprio “ser”, entre elas, a idéia de que o pensamento é algo à parte do corpo, que existe um “eu” interior, que é possível estabelecer o que se deve pensar, que eu sei pensar, existência de corpo e alma, etc.

    Assim, em Nit, a grosseria de Descartes se revela no fundamento de postular que há algo em mim que pensa, um “eu” interno e substancial autônomo. Um “eu” criado pela própria subjetividade desconhecida.

    A superstição dos lógicos, dita por Nit, se apresenta aquele que crê na possibilidade do pensamento chegar quando “ele” quiser, e não quando “eu” quero. Em Nit o pensamento é uma atividade, e enquanto tal se revela enquanto o “ser” atua. Consiste em destituir o “eu substancial” enquanto causa do pensar, pelo ato de pensar enquanto funções lógicas intimamente ligadas à estrutura gramatical da linguagem criada pelo homem.

    Mas quem é o “eu”? Há um “eu” que habita nós mesmos? – Nietzsche nos responde através de Zarastustra:

    “Por detrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, se encontra um poderoso senhor e um sábio desconhecido – ele se chama si mesmo. Ele habita o teu corpo, ele é o teu corpo. Há mais razão em teu corpo do que em tua melhor sabedoria. E quem sabe, aliás, para que o teu corpo necessita justamente da tua melhor sabedoria? Teu si mesmo se ri do teu eu e de seus saltos orgulhosos. ‘O que são para mim esses saltos e asas do pensamento’?, diz ele consigo. Um desvio para as minhas finalidades. Eu sou a andadeira do eu e aquele que infla os seus conceitos.”

    Percebe-se que Nit inverte os pólos sagrados da metafísica, do Cristianismo, do platonismo, do dogmático e propõe o “corpo” enquanto a grande razão. Aqui não há uma alma, um espírito, um “eu”, uma substância subjetiva que está aprisionada no corpo, é o próprio corpo que és tu.

    “”O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um único sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor. Instrumento do teu corpo é também tua pequena razão, meu irmão, que tu denominas ‘espírito’, uma pequena ferramenta e um brinquedo de tua grande razão. ‘Eu’, dizes tu, e estas orgulhoso dessa palavra. Mas aquilo que é maior, em que não queres crer – teu corpo e sua grande razão – não diz eu, porém faz eu. Aquilo que os sentidos sentem e que o espírito conhece, não tem neles mesmos seu fim. Porém sentido e espírito te convencem de que eles são o fim de todas as coisas – tão vaidosos são eles. Ferramenta e brinquedo são sentidos e espírito: atrás dele se encontra ainda o si mesmo. O si mesmo procura com os olhos dos sentidos, escuta com os ouvidos do espírito.” (Assim falou Zaratustra, dos desprezadores do corpo)

    Revela-se nesse pensamento que o corpo enquanto grande razão é de profundidade desconhecida, sendo aquele “Eu” enquanto fundamento da subjetividade, apenas uma ilusão criada pela consciência advindo da linguagem criada pelo homem.

    Tomando o corpo enquanto o grande centro para compreensão da subjetividade, Nit busca a superação da concepção dualista (mente e corpo) com o cuidado de não incorrer em um materialismo grosseiro, embora, muitos críticos o dirão assim, acusando-o de um individualista ao extremo. – Talvez porque apreendem a singularidade à luz da individualidade criada pela ideologia liberal.

    Não significa aqui a colocação do corpo enquanto face do hedonismo, da estética, da beleza. Olhar para corpo enquanto ponto de partida apresenta-se como uma nova forma de subjetividade, buscando adentrar nessa “grande razão”, unidade complexa de vários processos corporais, repleto de segredos e acessos. Consiste a tarefa da filosofia e da psicologia, aqui, em buscar o conhecimento tendo o corpo como ponto de partida, e não a alma, a mente, o “Eu”.

    Vale ressaltar o fato do próprio Nit ter dado tanta importância aos fatores fisiológicos de sua enfermidade, no exercício de atentar-se à alternância da sua saúde, suas melhoras e pioras, vertigens, pressão, temperatura… uma série de fatores que ocorreriam em cada célula do corpo chegando às influências da subjetividade.

    Dentro dessa perspectiva, a consciência, a racionalidade, a intelectualidade, o pensar entre outros atributos de um “Eu” subjetivo, são apenas instrumentos advindos dos processos gramaticais, daí a assepsia de “verdades” e “mentiras” na filosofia de Nit.

    A percepção das coisas passa pelos processos fisiológicos fundamentais da vida. Ser consciente de algo não se revela mais do que uma fantasia criada pela linguagem, antes de tudo eu sou um corpo e este corpo independe dos processos cognitivos que se revelam na medida em que surge a necessidade de comunicação entre os seres humanos (linguagem, sociedade).

    Dessa forma, a consciência em Nit é apenas um instrumento criado pelos homens, na medida em que surgiu a necessidade de comunicabilidade e vida em sociedade, destituindo-a enquanto uma estrutura central da subjetividade do homem. Em outras palavras, somos o pensamento do “rebanho”, pensamos, sentimos, agimos e criamos aquilo que é de muitos e não da originalidade singular de cada um.

    Porém, quando falamos em transvaloração em Nit, falamos da possibilidade de superar o “rebanho” e descobrir a nossa singularidade, o primeiro passo é descobrir que a consciência é um instrumento da sociedade e saber as armadilhas que ela se encarrega nos processos de pensamento.
    – Esse é um dos grandes nortes do pensamento de Nit, e tem o Eterno Retorno, quem sabe, noutro post =)

    bjinhos,até já
    Carol

    Comment by Carol — 30/12/2010 @ 6:07 AM

    • Caroooooollllll!

      é pra post tb!

      Tá precisando de uma força > traz pra cá, a Vi vai adorar.E a Deb…. adora fazer comidassssss

      O André já veio sabendo!

      bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 2:25 AM

  14. Aê Gab!

    o filhão com certeza tá encabeçando uma geração de sobrinhos e filhos cheios de sol e potência.e potência da boa.potência do bem.simplesmente bem.
    isto é Felicidade, brother.da melhor que tem. Obrigado .
    E o andré ta descendo com o moleque dele também, … vai deixar na casa da Carol, huahuhauhhauhauahauh…

    é isso véio, potência é o que não falta, mas vamos falar da vontade…
    vontade de potência.o véio Nietzsche decerto tinha a menina de sobra né? pirou e morreu de sífiles sem nem ser católico,ahahah, brincadeira?
    pois é, cristão que é macho encara todas na pureza….

    eu tenho um livro de contos do Deleuze, a Fy também já leu e tá à disposição, chama a Ilha Deserta.num dos contos ele comenta a apropriação da vontade de potência pelos fracos e degeneração do seu sentido original. O título do texto é “Conclusões sobre a vontade de potência e o eterno retorno”.
    então vamo lá:to copiando :

    (Sobre a vontade de potência)

    Não se trata de um desejo de dominar, pois como, *o que é dominante, poderia desejar dominar?

    Zaratustra diz:

    “Desejo de dominar, mas quem poderia chamar isso de desejo?”.

    A vontade de potência não é uma vontade que quer a potência ou que deseja dominar.

    Com efeito, uma tal interpretação apresentaria dois inconvenientes:

    Se a vontade de potência significasse querer a potência, ela, evidentemente, dependeria dos valores estabelecidos, honrarias, dinheiro, poder social, pois esse valores determinam a atribuição e recognição da potência como objeto de desejo e de vontade.

    E a vontade que quisesse uma tal potência somente a obteria lançando-se numa luta ou num combate.

    Ademais, perguntemos: quem quer a potência dessa maneira? quem deseja dominar?

    Precisamente aqueles que Nietzsche chama de escravos, fracos.

    Querer a potência é a imagem que os impotentes constroem para si da vontade de potência.

    Nietzsche sempre viu na luta, no combate, um meio de seleção, mas que funcionava a contrapelo, e que redundava em benefício dos escravos e do rebanho.

    Entre as mais bombásticas palavras de Nietzsche encontramos: “tem-se sempre que defender os fortes contra os fracos”. (tá no texto, huahuahah)

    Sem dúvida, no desejo de dominar, na imagem que impotentes constroem para si da vontade de potência, reencontra-se ainda uma vontade de potência:

    porém, no mais baixo grau.

    A vontade de potência, em seu mais elevado grau, sob sua forma intensa ou intensiva, não consiste em cobiçar e nem mesmo em tomar, mas em dar e em criar.

    Seu verdadeiro nome, diz Zaratustra, é a virtude que dá.

    E que a máscara seja o mais belo dom, isso dá testemunho da vontade de potência como força plástica, como a mais elevada potência da arte.

    A pergunta “quem?”, (Lebrun enfatizava*), era um expediente tipicamente nietzschiano, que fazia ruir as pretensões universais dos que impunhavam seus valores.

    E é contra essa pretensão e fixidez de valores que Nietzsche pensava uma vontade de potência entendida como criação, transformação.

    No sentido inverso do de dominação, que não pode ser outra coisa senão a aceitação dos valores vigentes.

    —–

    Entre uma onda e outra, nestes dias de vagabundagem, taí, muito bom: http://www.scribd.com/doc/29054826/O-que-e-Poder-Gerard-Lebrun

    é mais ou menos exatamente o que diz o post, mas valeu.

    té já
    beijo Fy
    abraço pra todos e parabéns, pra variar.
    TocaYo

    Comment by TocaYo — 30/12/2010 @ 10:06 AM

    • [ô …. bonitão … ] haha eu q escolhi ! – Carol ]

      o filhão com certeza tá encabeçando uma geração de sobrinhos e filhos cheios de sol e potência.e potência da boa.potência do bem.simplesmente bem.
      isto é Felicidade, brother.da melhor que tem. Obrigado .

      bj
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 2:32 AM

  15. Ô bonitão,

    Vontade de Potência : claro que eu fico com o filho do André.
    Vai ser muito bem vindo. Já tô esperando.

    Não se preocupe que vai chegar tua vez. Loguinho, loguinho.

    bjinhos,
    Carol.

    Comment by Carol — 30/12/2010 @ 10:24 AM

  16. ” pregar esse post… ” Essa frase deu vontade de rir e de voltar a dançar Ballet Classico.
    Precisamos dançar mais.

    Comment by Ariane — 30/12/2010 @ 3:11 PM

    • Feliz Ano Novo, Ariane.

      Dancemos.

      bjs
      Fy

      Comment by Fy — 31/12/2010 @ 2:33 AM

  17. Fy, me ajuda na seguinte questão:

    O ser humano, para Nit, está sob a influência de diversas forças, que lutam entre si. Ou seja, não seriamos totalmente guiados pela razão.

    Bom, digamos que nasci Lebre, as forças reativas se superam, então azar o meu. O negócio é sentar e chorar por ter nascido lebre? E se eu quiser ser Gato???

    Acho que não entendi essa vontade de potência. Não seria a superação de si mesmo?

    Então uma lebre não poderia ser Gato?

    Bjs

    Comment by Luciana — 06/04/2012 @ 5:37 AM

  18. Oi Luciana,

    Eu tb não entendí :

    O ser humano, para Nit, está sob a influência de diversas forças, que lutam entre si. Ou seja, não seriamos totalmente guiados pela razão.

    O que vc entende por razão ?

    bj
    Fy

    Comment by Fy — 06/04/2012 @ 6:44 AM

    • Oi
      Pra mim é a capacidade de pensar, raciocinar, de conhecer, entender….

      Dicionário

      ” Razão é a capacidade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas ”

      Bj

      Comment by Luciana — 06/04/2012 @ 8:14 AM

      • Ta bem .

        Razão :

        Suposição ou premissa + reconhecer + raciocinar + entender.

        Supondo q seja isto, como um coelho poderia se transformar em lebre , supondo, reconhecendo, raciocinando e entendendo ?

        – Vontade de Potência em Nit – não tem relação nenhuma com isto.

        Um ser capaz de todas estas operações acima , como diz o dicionário, é um computador. Não é um ser humano .

        Nenhuma teoria que eu conheça , descarta o raciocínio, o conhecimento, etc… – apenas não o condiciona a uma entidade separada do corpo como fez Descartes, mas ao contrário o identifica a uma rede de fatores relacionados ao corpo e sua experiência viva. E aí, teríamos que consultar toda uma série biólogos, filósofos, cientistas e suas teses, rebuscar todo os progressos e atualidades das ciencias da cognição … mais moderninhas que Descartes….

        Vontade de Potência por Nit , é um impulso que reage e resiste no interior das forças, uma multiplicidade de forças que em suas gradações se manifesta na sua forma última em todo e qualquer tipo de fenômeno : fenômenos políticos, culturais, astronômicos, permeando a natureza e o próprio homem. Nada mais é que um atributo também do homem : inerente ao Homem , no homem. Que por sua vez tb é uma multiplicidade de forças , que em suas gradações se manifesta em “ todo ele ” > sem “divisões” metafísicas , usando o termo como é aplicado por Platão e estendido por Descartes.

        bj
        Fy

        Comment by Fy — 06/04/2012 @ 9:46 AM

        • “Vontade de Potência em Nit – não tem relação nenhuma com isto.”

          Fy, eu não quis dizer isso. Me expressei mal.

          Pergunto o seguinte: Se todos têm vontade de potência, porque alguns são lebres e os são gatos? Por que nem todos são gatos? Por que nem todos conseguem se superar?

          Comment by Luciana — 06/04/2012 @ 9:54 AM

          • “Ou seja, a nossa razão se fundamenta naquilo que nos é útil, que aumente nosso poder de ação, aí está a perfeição, por outro lado a imperfeição é o que diminui esse mesmo poder, tornando a razão escrava das paixões, e impedindo a sua livre atividade. E para ele, o homem só é livre quando conduzido pela razão. Nessa perspectiva, tanto a perfeição e a imperfeição, quanto o bom e o mau, não indicam eles nada de positivo nas coisas, consideradas em si mesmas, e não são senão modos de pensar ou noções que formamos porque comparamos as coisas entre si (Spinoza, 1965, p.224). ”

            Então, esse razão do Spinoza não tem nas a ver com a do Platão-Aristóteles.

            Existe alguma relação entre as paixões do spinoza e as forças as quais o Nit faz referência?

            O Nit seria totalmente Determinista? Seleção Natural. Forte x Fraco= Genética.

            Bj !

            Bom feriado, Feliz Páscoa, se tiver algum cristão por aqui . hahahah).

            Comment by Luciana — 06/04/2012 @ 11:49 AM

        • Ah… super pergunta Luciana !

          Sabe, lá no post do Anarco, quase nas primeiras linhas ele explica uma das principais razões….

          – Obviamente, trazendo esse comentário pra vida… você começa a perceber como essa mania de “divisão” está entranhada na nossa cabeça. –

          Nit > explica bem isto no post que eu fiz > leia de novo , Nietzsche é sempre mto bom .

          Spinoza tb dá um baile > é excelente qdo sugere a baita responsabilidade que significa reconhecer este atributo como natural em nós.

          E, o que mais fez – este tipo de cultura… “metafísica – dualista” … além de nos incutir séculos de desmerecimento pessoal ?

          Eu, sempre fui contra este cartesianismo todo … blagh…. engessado …– e alías.. se fosse produtivo… seria uma gataiada só .

          Sou mesmo crítica a qualquer abordagem – que penso absurda – que abandone a interação do homem com o mundo, do sujeito existente e mundo contingente.

          Mas sou também crítica à idéia de corpo ainda limitado à ideia de corpo próprio,
          uma imagem do corpo que é elaborada, transmitida e mantida também pela fenomenologia,
          um corpo que está fixado dentro dos seus contornos.

          Só consigo entender o corpo enquanto processo que é constantemente constituído e
          reinventado, e que participa sim, de uma outra noção de espaço, além do corpo limitado pela
          estrutura física, e ainda, reinvidicando a Arte: elemento que tem participado na
          constituição de diferentes corpos , na elaboração de outras respostas e/ou
          possibilidades para refletir sobre as relações entre a vida e corpo.

          Ó, taí o in-com-pa-rá-vel Gil [ José Gil ] : o inacreditável Gil, que me fez atravessar por todos os lados
          o tal significado da “ consciência do corpo ” : mudando tudo … e demonstrando
          a impregnação da consciência pelos movimentos do corpo, que é própria – tão própria –
          da natureza da consciência.

          Coelho virar gato : só com muita Arte.

          bj
          Fy

          Comment by Fy — 06/04/2012 @ 12:17 PM

          • Luciana , acabei de ver este teu último comment.

            Não dá tempo de responder agora. Amanhã eu respondo, dentro q eu acho, do q eu penso .

            Mas, eu percebo q vc não tem uma leitura consistente nem de Spinoza , nem de Nit > aliás , 2 grandes nomes dentro da visão pós-moderna. Dois impulsos fortes em Arte, Política, Psicologia, Antropologia … Sociologia – etcetalz… – ah… tem balançado tudo .

            Vale a pena. É uma visão de mundo bem mais real, humana e produtiva. Alem de musical .

            Feliz Páscoa ! super feriados ! : não… não sou cristã.

            bj

            Fy

            Comment by Fy — 06/04/2012 @ 12:29 PM

            • Fy, querida, claro que não tenho. Por isso vivo aqui te enchendo o saco.

              Mas terei, um dia eu chego lá.😉
              Bj

              Comment by Luciana — 06/04/2012 @ 12:38 PM

              • Ah… [ não tenho saco ] e vc é sempre bem vinda !

                hahahahaha

                té amanhã

                bj
                Fy

                Comment by Fy — 06/04/2012 @ 12:45 PM

  19. Enjoyed reading this, really excellent stuff, appreciate it. 353868

    Comment by My Homepage — 16/04/2012 @ 5:27 PM

    • thank you, glad you like my stuff –

      xs

      Comment by Fy — 17/04/2012 @ 5:08 AM

  20. Nossa que Blog Liiiiiiiiiiiiido ! Que bom encontrá-lo .Parabéns.

    Não tenho muito conhecimento sobre filosofia, e lendo seu texto me trouxe

    de volta á mente algo que nunca entendi muito bem. Pelo pouco que sei

    a crítca de Niezsche se direciona de forma rigorosa á dialética de Hegel,

    mas ao fazer essa divisão entre Fortes x Fracos, Niezsche não estaria se utilizando

    da dialética também.

    Comment by Roberta — 27/04/2013 @ 6:12 AM

    • Oi Roberta , seja bem vinda!

      Sua pergunta é bastante pertinente, e não só pq esta analogia entre Nit e Hegel é bastante abordada em discussões sobre Filosofia , – mas tb pq esta questão – aparentemente bem confusa – já andou passeando em minha cabeça.

      Hegel tem coisas geniais . E em muitos aspectos “aparentemente” se aproxima das idéias de Nit , considerando que ambos foram pensadores que confrontaram as idéias de suas respectivas épocas – Desta forma , é preciso uma certa sutileza para apontar suas diferenças , e neste caso : radicais .

      Well : a resposta vai ser longa ….

      Esta é uma preocupação de Deleuze , que eu considero um pensador mais q genial, justamente por basear suas idéias na mais forte premissa de Nit : a de trazer a Filosofia para a Realidade . Realidade que , em se tratando de Nit não dá treguas ao menor, ao conformismo e à submissão . E menos ainda às idiossincrasias – por vezes absurdas , mas “permitidas” pela tal da “interpretação”.

      Deleuze coloca :

      – Não se pode julgar forças – > se não se levar em conta , em primeiro lugar, sua qualidade: ativa ou reativa

      em segundo lugar : a afinidade dessa qualidade com o polo correspondente da vontade de potência, afirmativo ou negativo, em terceiro lugar, a nuance de qualidade que a força apresenta, num tal ou qual momento de seu desenvolvimento, relacionada com sua afinidade!

      Nesse registro, seria possível entender a crítica de Nietzsche ao positivismo, ao humanismo, à dialética.

      Ignorando as qualidades das forças, essas maneiras de pensar se revelariam impotentes para interpretar e incapazes de avaliar.

      A DIALÉTICA , EM ESPECÍFICO , SERIA UMA FORÇA QUE, IMPOSSIBILITADA DE AFIRMAR SUA DIFERENÇA, NÃO MAIS AGIRIA: ELA SE LIMITARIA A REAGIR ÀS FORÇAS QUE A DOMINAM .

      [ coloquei em maiúscula pra q vc possa recolocar esta afirmação no exemplo que colocarei abaixo, comparando a Mentalidade do Escravo na dialética de Hegel contrapondo a proposta de Nietzsche ]

      Negando tudo o que não é, ela poria o elemento negativo em primeiro plano e dele faria a própria essência e o princípio mesmo de sua existência.

      Pensamento fundalmentamente cristão , ela apareceria como ” a ideologia natural do ressentimento, da má consciência” .

      E Deleuze conclui:

      ‘ Não existe compromisso possível entre Hegel e Nietzsche. A filosofia de Nietzsche tem grande alcance polêmico, ela forma uma antidialética absoluta, propõe-se denunciar todas as mistificações que encontram na dialética um último refúgio .”

      Vamos lá :

      – qdo eu leio isto, tenho a nítida sensação de estar sendo enrolada : me parece uma tentativa óbvia de “envolver” o conformismo em um pacote bonitinho , agradável aos olhos mas cujo conteúdo nos remete ao nadismo… ou a um budismo conformista que apenas disfarça a submissão , tratando-a de uma maneira “filosófica” – para o bem do governo ou da economia :

      O senhor tem, com o escravo, uma relação mediata em virtude da existência independente, pois é precisamente a ela que o escravo está preso, ela é sua cadeia e da qual não pode se desprender na luta, o que o levou a mostrar-se dependente, posto que possuía sua independência numa coisa externa.

      Quanto ao senhor, ele é a potência que domina esse ser externo, pois provou na luta que o considera como puramente negativo; uma vez que ele domina esse ser .

      Desse modo o senhor se relaciona com a coisa por mediação do escravo; este último, enquanto consciência de si, relaciona-se negativamente com a coisa “ e a ultrapassa ” ; mas ao mesmo tempo a coisa é para ele independente e o escravo não pode, por meio de sua negação, chegar a suprimi-la; ele só faz trabalhar.

      Em compensação, para o senhor, graças a essa mediação, a relação imediata torna-se a pura negação da coisa ou o seu gozo; aquilo que o apetite não conseguiu, ele o consegue; domina a coisa e se satisfaz na fruição. O apetite não chega a isso por causa da independência da coisa; mas o senhor, ao colocar o escravo contra ela e si próprio, só entra em contato com o aspecto dependente da coisa, fruindo-a puramente; deixa o aspecto independente da coisa para o escravo que a trabalha.

      Este difícil texto de é característico do método hegeliano. Ele inspirou amplamente as análises de nossos contemporâneos sobre as relações do eu com o outro. Na luta de duas consciências, Hegel examina simultaneamente a relação de dois “eu” e a relação de cada eu com sua própria vida.

      O “senhor”, aquele que é vitorioso no combate, aceitou arriscar a vida. Por conseguinte, ele é mais do que ela, por sua coragem colocou-se acima dos objetos comuns da necessidade e da existência empírica.

      O vencido, aquele que se rendeu, tem medo de perder a vida. Por conseguinte, ele é, de início, escravo da vida e de seus objetos empíricos. Torna-se tembém escravo do senhor que o conserva (servus = conservado) a fim de ler em seu olhar temeroso e submisso o reflexo de sua vitória, a fim de se fazer reconhecer como consciência.

      Hegel quer dizer que o senhor não é senhor “em-si”, mas por meio de uma mediação, isto é, uma relação. O senhor se define por sua relação com o escravo (e por sua relação com os objetos que depende, ela própria, da relação com o escravo).

      No ponto de partida, o senhor domina os objetos da necessidade, posto que no campo de batalha ele se mostrou corajoso, superior à sua vida, portanto, aos objetos das necessidades. Secundariamente, o senhor domina os objetos por mediação do escravo que trabalha, isto é, que transforma os objetos materiais em objetos de consumo e de fruição para o senhor.

      Conclusão : [ verdadeira ] Temos DOIS escravos .

      E uma forma que deambula em círculos – num blablablá que na real minimiza a problemática do Escravo e o coloca no mesmo nível do Senhor. – blablablá…. total e … enganador . Apenas, como diz Deleuze : uma mistificação – bem escrita – .

      E isto é o contrário da Vontade de Potência . Alem de ser um raciocínio fundamentado apenas na “reação” de uma idéia à outra . O contrário de Nit que identifica perfeitamente a mentalidade do Escravo … e mais : a critica veementemente.

      Assim como critica o “método da Dialética “ como um todo :

      “Um outro sinal distintivo dos teólogos [ – por ex – ] é a sua incapacidade filológica. Entendo aqui por filologia (…) a arte de bem ler – de saber distinguir os fatos, sem estar a falseá-los por interpretações, sem perder, no desejo de compreender, a precaução, a paciência e a finesse.” (O Anticristo – Nietzsche ]

      Tentei ser clara em relação à forma como entendo , embora o tema seja complicado…

      Bj

      Fy

      Comment by Fy — 28/04/2013 @ 4:50 AM

      • Bom trabalho, Fy, e se me permitem um pitaco aqui, vou incrementar esta aversão à dialética por Nietzsche, lembrando alguns parágrafos da Gaia Ciência , – que me vieram à mente quando lí seu comentário .

        Antes devo explicar que ao lê-lo , me pareceu que (assim como Deleuze ou Nietzsche) voce compreende a dialética como um jogo não de idéias mas de palavras . Não de linguagem, mas de: gramática.
        Ou seja : uma circumambulação que se resume a dar voltas e mais voltas em torno de um mesmo objeto, enfeitando o circuito com palavras-adorno que não alteram nem o objeto em questão e nem o percurso .
        Resumindo: não se chega a lugar nenhum que não seja a uma repetição floreada do mesmo ítem: é um espetáculo discursivo circulando um sentido fechado. Um núcleo de sentido determinado que exclui qualquer linha de fuga ou aberturas pra o vir-a-ser, para o rizomático jogo do mundo, para um novo instrumental, ou para as infinitas formas de expressão .

        É preciso compreender muito bem as idéias de Nit para prosseguir na leitura a seguir, pois ele nos lança uma concepção de Consciência diferente do sentido comum a que estamos habituados e a relaciona com o uso manipulador da “Gramática” .

        Nietzsche critica duramente a Gramática, denominando-a de ‘metafísica do povo’. (aliás, contemporizando, diante do grotesco espetáculo feliciano de verborragia, que sublime observação !)

        Relacionando tudo isto ao post , justamente esta relação entre consciência e linguagem, de certa forma, se desenvolveu a partir da dialética senhor-escravo. ( Aqui, é preciso um grau de honestidade intelectual enorme, pois raramente se encara uma tese tão perfeita. O que chamamos de Consciência não passa de um subproduto comprado pronto , manufaturado pelas lucrativas industrias de escravos)

        A moral dos senhores tem como ponto de partida o sentimento de distância, de superioridade.

        A moral dos escravos tem o seu fundamento na perspectiva da igualdade e da fraqueza.

        Os senhores criam as suas próprias tábuas de valores e os escravos como auto-defesa, oferecem sua ‘obediência irrestrita’.

        Os valores do senhor são confirmados a medida em que o escravo se deixa maltratar.

        Para Nietzsche, qualquer ato humano que passa pela consciência é uma ‘terrível obrigação’ que por muito tempo comandou os homens. O pensar consciente é a fatia mais rasa do homem, pois encarna-se em palavras, desvelando a sua gênese e relação com a linguagem humana.

        A consciência é uma tentativa do conhecimento de si mesmo, que no fundo é uma crítica de Nietzsche a Sócrates e a toda tradição filosófica ocidental.

        A tal consciência, segundo Nietzsche, tem uma faceta despersonalizante do individual, fazendo com que as peculiaridades do indivíduo se dissolvam. A percepção do mundo como um todo é rasa e superficial.

        O que conta é a perspectiva única e individual de cada homem.

        Neste registro, não há verdades absolutas, mas infinitas interpretações sobre infinitos universos. Cada perspectiva pode ser mais ou menos abrangente, mas, em geral, são imperfeitas, não-absolutas e complementares.

        Se pudermos falar em uma ‘objetividade do conhecimento’ em Nietzsche, essa tem como mote o “alargamento” das perspectivas e interpretações. Não se trata de um conhecimento linear, tampouco um conhecimento acumulativo.

        Aqui, podemos entender que “acumulativo” pode conter sua idéia de dialética-circular.

        A consciência é uma doença contagiosa para Nietzsche, que também acusa a compaixão de ser uma doença da civilização européia que levaria a um novo budismo e ao niilismo, na primeira dissertação da Genealogia da Moral.

        Nietzsche não trata sobre a dialética entre sujeito e objeto, fenômeno e coisa em si, já que está mais interessado em IMPLODIR : ( daí sua aversão por “dialética” ) todas as dicotomias, como a verdade-falsidade, o bem-mal, o sujeito-objeto, a aparência-realidade.

        Hahahaha, Nietzsche não é confuso, ele é claro demais!

        beijo a todos,
        tio Guz

        Comment by Gustavo — 29/04/2013 @ 1:25 AM

  21. Fy, conseguiu sim ser muito clara. Agradeço pela tua resposta e pelo comentário do tio Guz.

    Fui pesquisar o assunto e acabei achando isso, Compartilho com vocês. Abraço a todos.

    “O que sempre me interessou foi o heterogêneo, aquilo que não chega sequer a se opor. O que sequer se opõe, também pode ser definido como a maior força de oposição à dialética ou como a maior fraqueza. Precisamente a imagem da fraqueza me pareceu oferecer, muitas vezes, mais resistência à dialética. Não o forte, mas o fraco desafia a dialética (…). Nietzsche mostrou, melhor que outros pensadores, o processo de conversão que faz com que a suprema fraqueza se torne a maior força. Dizer que a maior fraqueza – filosofia, cristianismo – tem prevalecido sobre a máxima força, e que esta perversão é a moral, a origem do débito, da culpa, etc. é uma proposição dialética? É dialética quando Nietzsche diz que a dialética é a vitória dos fracos, mas, ao mesmo tempo é a manifestação da força? Eu não sei; certamente Nietzsche não queria, mas quando o diz, não é dialético? (DERRIDA, 1997, p. 30).”

    Comment by Roberta — 29/04/2013 @ 1:04 PM

  22. Japan

    Free links Thanks for the great article indeed…

    Trackback by Japan — 09/07/2014 @ 9:43 AM


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