windmills by fy

28/10/2011

O sétimo filho do sétimo filho está dentro de nós – por Billy Shears

Filed under: Uncategorized — Fy @ 9:44 AM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Há muitas estórias sobre a lenda do    sétimo filho do sétimo filho  . 

Na Inglaterra diz-se que esta figura terá poderes mágicos ;

– na metáfora construída pelos autores dos versos acima , ele encarna a figura de um libertador .

Fica difícil ler sobre esta lenda e não lembrar do mito do   Sebastianismo , criado por nossos irmãos lusitanos .

As vicissitudes do agora serão quebradas pela intervenção de alguém: no futuro , 

que restabelecerá a verdade e fará a justiça , trará a cura para vários males ou libertará um povo .

 

 

 Aqui em terra brasilis , durante muito tempo cultivamos a figura do   “ salvador da pátria ” ,

aquele que faria o Brasil deixar de ser o país do futuro e dar o grande salto adiante .

Parece que é comum à humanidade cultivar este tipo de mito , colocando sobre as costas de um outro ,

em um tempo futuro , as mudanças que devemos , nós , fazermos agora .

Por que isto acontece ?

 

 

Será que é por que nós tendemos a supervalorizar

a participação de outras pessoas sobre as dificuldades que encontramos pelo caminho ?

Um exemplo disto é quando estamos às voltas com determinadas situações de competitividade

em que somos levados a pensar :

“ Ah o outro é o inimigo , pensa diferente , quer nos fazer mal , têm interesses que se conflituam com os nossos ” ; pensamos nós .

 

 

E se estivermos certos ?  E realmente exista alguém que , por um ou outro motivo , nos quer mal .

 

 

Mas a saída é odiá-lo ?

 

 

Refletindo com cuidado , vejo que não .

O mestre Yoda vários pensamentos sobre este tema tem . . . rsrs . . .. .

Percebi , na prática , que o sábio Jedi acerta em cheio ;

o ódio nos cega para aquilo que temos dentro de nós e só nos faz ver aquilo que o outro tem de ruim .

Assim , vamos nos tornando piores , à medida em que combatemos o outro com raiva .

Não enxergamos que  “ a força ”  está dentro de nós ; 

– quando a sentimos , as coisas se esclarecem , o inimigo é fraco e por isso nos ataca e ao revidarmos mostramos a ele a nossa fraqueza .

 

 

Apesar da linha que divide a justiça da vingança ser tênue ,

sendo justos venceremos aqueles que se colocarem como nossos antagonistas ;  por outro lado ,

sendo vingativos os convidamos mais e mais a nos atacar .

Ser justo não é ser bom , nem mau .

A virtude está na justiça , assim como o vício está na vingança .

 

 

Mas o que este exemplo tem a ver com o mito do libertador futuro ?

É que a sociedade tem muito em seu bojo o que cada indivíduo carrega em seu interior .

Como ?   O que significa isso que eu falei ?   Explico – ou pelo menos tento…rsrs – 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na mesma medida em que projetamos o mal no outro

e não vemos que ele pode estar presente em nós também . 

A sociedade parece não enxergar que é ela que deve lidar com os males do agora

e que esperar por um salvador que a liberte do atual estado de coisas produz conformismo e inação ,

favorecendo aqueles que possuem as chaves das correntes .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eis a chave :  a razão e a ação ; ou a ação guiada pela razão .

Não uma razão fria , irmã da crueldade ,

mas uma razão com a sensibilidade de conhecer o que temos dentro de nós ,

o que nos anima como indivíduo , uma razão justa .

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não existe utopia , existe o Fazer , existe o Agora ! 

 

 

 

 

 

 

Pra descontrair : Se algum engraçadinho for ao show do TFF e pedir para eles tocarem Raul , com certeza eles irão tocar , mas não será Raul Seixas .

RAUUULL !

RAUUUL !

RAUUUL !   HE HE HE HE HE

 

Billy Shears

 

 

 

40 Comments »

  1. Boa noite Windmills, Fy, hoje sou a primeirona.
    Adorei o post, a mensagem do Billy Shears, e claro a música também.
    Como seria maravilhoso um mundo que dispensasse mártires ou heróis.
    Parabéns Billy Shears.
    Mas quem é Raul? Qual é a relação com os reis de Espanha? (burrinha eu, mas não entendí!)
    Sofia

    Comment by Sofia — 28/10/2011 @ 12:16 PM

  2. Valeu, Fy!

    Ficou show de bola. Só um detalhe, não sei se é o meu PC, mas a 1a ilustração, com os versos da música, só aparece a parte da esquerda, a maior parte está encoberta pelos links do blogroll, à direita.

    Obrigado, Sofia. Olha…não sei se esse Raul é algum personagem da História, creio que não. Parece-me que deve ser um personagem criado pelo autor da letra, talvez o sétimo filho do sétimo filho idealizado por ele, aquele que irá quebrar as correntes. Creio que ele retrabalhou o mito do 7º filho, conhecido no Reino Unido, e criou uma letra dando nome a um personagem.

    Comment by billy shears — 28/10/2011 @ 12:44 PM

  3. Aloha Billy,
    Muito legal!

    Eu ia te falar qualquer coisa sobre resolução mas abri aqui no ipad e ficou perfeito. De qualquer forma dei uma ajeitada aqui pra Fy, depois voce confirma se melhorou. Volto depois pra comentar teu post, to com uma fome braba!

    abraçoaê
    TocaYo

    Comment by TocaYo — 28/10/2011 @ 1:09 PM

    • Aloha Tocayo!

      Ainda aparece pra mim do mesmo jeito.

      Bom apetite!

      Daqui a pouco, vou fazer um lanche também…hehe

      Falou!

      Comment by billy shears — 28/10/2011 @ 1:34 PM

  4. Um velho índio certa vez descreveu seus conflitos internos:
    Dentro de mim existem 2 lobos, um deles é cruel e mau, o outro é bom e compreensivo. Os dois estão sempre brigando.
    Quando então lhe perguntaram qual dos dois ganharia a briga, o sábio indio parou, refletiu e respondeu:
    Aquele que eu alimento.

    O setimo filho do setimo filho está dentro de nós.

    BEIJO
    Marianne

    Comment by Marianne — 28/10/2011 @ 1:19 PM

  5. Ôopa Billy Shears, ótimo post, excelente abordagem sobre ação e justiça. E claro, excelente som.
    Sou meio suspeito porque o TFF está entre minhas bandas favoritas.
    Vou elucidar o mistério do Raullll, mesmo inserindo uma temática alheia, (ou quem sabe paralela em termos de justiça) à sua abordagem do tema. Em todo caso fica como uma sugestão relevante para futuras discussões.

    De onde vem o tal do Raul?

    “Raoul” Jaime Orzabal de la Quintana veio ao mundo dia 22 de agosto de 1961 em Havant, Hampshire, Inglaterra. Filho de George e Margaret Orzabal ele era o segundo de três filhos que o casal teve. O pai do pequeno Raoul queria que todos os seus filhos tivessem nomes Franceses ou Espanhóis, mas sua mãe, pensando que Raoul seria muito difícil para a pronúncia inglesa, trocou seu primeiro nome para Roland (que também é utilizado em países que falam Francês), aproximadamente duas semanas após seu nascimento. Desta forma, com a intenção original de seu pai intacta, Roland começou sua jornada pela estrada da vida, que um dia iria guiá-lo ao mundo da “música pop” e da fama internacional. Contudo, nós estamos pulando ligeiramente à frente aqui…

    Depois de não muito tempo após o nascimento de Roland, seu pai, que era um ameaçador agnóstico, sofreu uma crise nervosa, na realidade pensou que era Deus por um tempo. Enquanto Roland tinha três anos, George Orzabal decidiu abrir uma agência de entretenimento fora de casa com a mãe de Roland, que era uma dançarina. Roland dizia “Nº 1 Revista em 1985”, “… nós tínhamos todas as espécies de pessoas dentro da nossa casa o tempo todo. Cuspidores de fogo, contorcionistas, o logro, acrobatas e muitos músicos. Especialmente guitarristas, os quais me influenciaram a tocar.” Quando Roland tinha mais ou menos 9 anos, recebeu uma guitarra de um mestre músico.

    Os pais de Roland tinham um relacionamento tumultuoso, e o cenário de brigas seguido de violência era um periódico tema na casa dos Orzabal, de acordo com Roland. Testemunhas para estes fatos eram: Roland, seu irmão mais velho Carlos e seu irmão mais novo, Julian. Por vezes, o temperamento explosivo de George Orzabal era direcionado a seus filhos. Isso fez Roland ficar com tanto medo de seu pai, que dificilmente ele conseguia falar com ele. Quando Roland tinha nove anos, sua mãe tendo conseguido dinheiro suficiente, criou coragem para deixar o marido. Margaret e seus três filhos partiram no meio da noite, para o alívio do jovem Roland. As experiências da infância de Roland seriam refletidas em suas músicas por anos.

    etc..

    Na discografia do TFF o The Hurting é uma descrição sofrida e tocante desta infância sofrida e tumultuada do Roland.

    O disco todo contém estas composições de Roland Orzabal, que nas letras escreveu quase que uma biografia de sua infância fudida que tambem acabou por influenciá-lo na tal terapia do “grito primal” – coisa que por sinal, John Lennon tambem tentou quando era um ex-Beatle nos anos 70.

    abraço
    João Pedro

    Comment by João Pedro — 29/10/2011 @ 12:41 AM

    • João Pedro, valeu pelos esclarecimentos acerca da biografia do Roland Orzabal; tem tudo a ver com o post sim. Agora entendo que ele colocou em sua obra os sentimentos conflitantes que ele vivenciou em sua infância e explica também a sua simpatia pela corrente do “Grito Primal”, exemplicada em Shout.

      Também me amarro muito em TFF, destaco a sonoridade de Pale Shelter, a mensagem de Seeds of Love e o clipe de Head Over Heels. Teve um ano que eu enviei o clipe de Seeds of Love para meus colegas de trabalho com uma mensagem de final de ano, ficou muito legal.

      Falou!

      Comment by billy shears — 29/10/2011 @ 11:14 AM

      • Resolvi ouvir Head Over Heels no youtube e achei uma pérola. Um paródia muito bem bolada da letra em cima da música e do clipe.

        Ficou engraçado:


        😀

        Comment by billy shears — 29/10/2011 @ 11:33 AM

        • Ficou excelente!

          adorei isto, Billy! hahahahahaha

          bj
          Super sábado aê no Acre!
          Fy

          Comment by Fy — 30/10/2011 @ 12:21 AM

          • Valeu, Fy!

            Trilha da hora pra “agitar” o sábado:

            hehe

            Comment by billy shears — 30/10/2011 @ 5:23 AM

            • AêeeHHH Billy, amigo, este vídeo é uma obra de arte!

              Isto é Brasil, um verdadeiro caleidoscópio de misturas e sincretismos, magia crowleyana pura.

              Por falar em magia, voce falou em uma das músicas do TFF que eu mais gosto. E, ficou mais legal ainda com este lance de grito primal. Independente da eficácia, eu sempre sugiro um bom grito, quando alguma coisa fica engasgada. Não há nada melhor depois de um dia daqueles que sentir um maral batendo e dropar um ondão encomendado. É a hora do urro primal. É sair da água com o peito limpo, descarregado.

              abração aê,

              TocaYo

              Comment by TocaYo — 30/10/2011 @ 7:16 AM

            • Ah… vou usar este vídeo, Billy!

              [ traz mais, hahahahah!]

              super final de semana,

              bj
              Fy

              Comment by Fy — 30/10/2011 @ 7:34 AM

    • Jonas !

      Bom, igualzinho a Carol : como é triste. Como é cruel.

      Mas… eu vou ver que terapia é esta, aiaiai : não conhecia isto.

      bj
      Fy

      Comment by Fy — 30/10/2011 @ 12:23 AM

    • Eu também não conhecia a história do cara. Dá ainda mais uma dimensão à TFF.

      E mesmo não sabendo dessa inclinação ao “grito primal”, essa é realmente a ideia que Shout transmite, como o Billy falou.
      Imagino se Woman In Chains tem algo a ver com o abuso da mãe que ele presenciou, ou é algo mais geral.

      Comment by Lotus Eater — 31/10/2011 @ 1:40 PM

      • Aêeeee Billy, post bombado! Trouxe até a Lotus de volta.
        Tudo bem, Lotus? Voce faz falta !
        Mais uma colocação relevante e que traz uma tremenda carga emocional pra esta letra que já é forte por si. Imagine a defasagem fudida e seu significado psicológico ondeando pela vida fora de um garoto que presencia,em total e miserável impotência a degradação física ou moral da figura da mãe.
        Eu acho que o relacionamento entre mãe e filhos , é “primal”, é bicho como diz a Fy, então imagino à partir daí,uma das mais furiosas dilacerações de instintos imagináveis. É qualquer coisa como assistir um estupro da pessoa que voce ama estando amarrado e impotente. (ou de qualquer pessoa).

        Aqui, dá pra sentir: And I feel hopelessly weighed downBy your eyes of steel(Your eyes of steel)

        E o resultado:It’s under my skin, but out of my handsI’ll tear it apart but I won’t understandI will not accept the Greatness of Man

        Furiosa reflexão, Lotus.

        Vale colocar:

        beijo Lótus, não some!
        TocaYo

        Comment by TocaYo — 01/11/2011 @ 1:56 AM

        • Hey TocaYo, eu passo aqui pra ler o pessoal, só não ando comentando porque tenho uma prediposição à prolixidade e tô com prazos demais e horas de menos =P

          Pensando em Woman In Chains, lembrei que ouvindo essa música quando criança, sem entender a letra, eu tinha praticamente a mesma reação, sentia uma ânsia triste, um desespero sem conserto. E curiosamente me fazia pensar na minha mãe. Acho que não tem como o sentimento por trás não transparecer, seja sequer na melodia, hmm.

          Beijão, man!

          Comment by Lotus Eater — 09/11/2011 @ 12:46 PM

  6. O Sebastianismo foi um movimento místico-secular que ocorreu em Portugal na segunda metade do século XVI como consequência da morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Por falta de herdeiros, o trono português terminou nas mãos do rei Filipe II da rama espanhola da casa de Habsburgo. Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e à cultura nordestina do Brasil. Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.

    Billy será que este messianismo, leitmotif de todas as religioes, não é um cacoete nosso, digo humano, difícilimo de se libertar?
    Fizemos isto até no rock and roll, ressuscitando Elvis.
    Não que eu negue a existência de verdadeiros líderes, e até os considere responsáveis pelas mudanças, pelas inovações, pelo progresso de uma forma geral. Aliás, acabamos de perder um grande líder. Um cérebro vanguardista, um homem a frente de seu tempo e que o conduziu a outros parâmetros e conceitos.
    Até mesmo os líderes que fizeram o mesmo em direção ao mal, são dignos de admiração. Um grande fenômeno neste sentido é Hitler. Franzino, origem comum, feio pra danar, e, no entanto, quase dominou o mundo. E um mundo relativamente alfabetizado, e, no caso não precisaremos caminhar demais no passado.

    Eu não sei se algum de voces assistiu o Capitão América de Joe Johnston . Ficou bom, melhor do que o esperado. Mas, a crítica do Pablo, no Cinema em Cena enfatiza bem o argumento do Billy. Personificndo os EUA como agente messiânico e libertador do nosso mundo.(o que não deixa de ser uma opção melhoradinha em relação às outras, hahaha) Vale a pena dar uma olhada, casa muito bem com o post.
    O problema é que eu não acho o link, nem no site dele. Se alguem achar coloca aqui, por favor, que eu até quero ler de novo.

    Mas, diante de todos os movimentos que temos assistido pelo mundo afora, eu, sinceramente acho que o messianismo está chegando ao fim e a humanidade está dando os primeiros passos pra se libertar deste mal.

    beijo a todos e, Billy: to the next!
    tio Guz

    Comment by Gustavo — 29/10/2011 @ 4:08 AM

  7. Ficou muito legal a imagem, gente! Adorei o post, apesar de ser briguenta…
    Muito triste esta biografia do Roland. Eu tambem não tinha a menor ideia.
    Sabe, eu acho que enquanto a humanidade não conseguir respeitar crianças, não há nenhuma esperança pra nossa raça. Eu fiquei sensibilizada com que eu lí, com a gravura do cd, mas imagine saindo por este mundão afora. O estado das crianças na África, estes menininhos cheios de bombas na barriga e o cérebro engulido por estas barabaridades “messiânicas” religiosas, estas crianças sentadas fantasiadas de “iguais” como no link que a Fy colocou sobre budismo. O abandono, a fome, a impotência destes pequeninos face o descaramento dos desvarios dos adultos.
    Imaginem quanta coisa se passa entre 4 paredes, em qualquer lugar do mundo e que tambem não sabemos. Não foi entre 4 paredes, sempre, que o messianismo acabou estuprando crianças e crianças em nome de anjos e deuses bondosos e salvadores?
    SOcOrro!!!

    Carol
    bjnhos

    Comment by Carol — 29/10/2011 @ 6:00 AM

  8. é lobisomi, tio

    Comment by duk@ — 29/10/2011 @ 6:23 AM

    • E é mesmo, duk@.

      Eu assinalei no post mas vale a pena colocar aqui tb , traduzido:

      O sétimo filho de um sétimo filho é um conceito de folclore sobre poderes especiais, dados ou naturalmente portados , por tal filho.

      O sétimo filho deve vir de uma linha ininterrupta, sem crianças do sexo feminino nascidas entre as gerações , e ser, por sua vez, nascido também de um sétimo filho .

      O número sete tem uma longa história de místicas e religiosas associações: sete pecados mortais , sete dormentes , botas de sete léguas , sete idades do homem , sete dias da criação , sete colinas de Roma , sete deuses sorte da mitologia japonesa, o Sete Sábios , sete irmãs , sete estrelas, sete maravilhas do mundo , etc

      Neste caso , refere-se a um homem que é o sétimo filho de um homem que é ele mesmo: um sétimo filho.

      Em algumas crenças, os poderes especiais são inatos, herdados simplesmente em virtude de sua ordem de nascimento, em outros os poderes são concedidos a ele por deus ou deuses por causa de sua ordem de nascimento.

      Acredita-se também, nesta miscelândia de crenças e folclores que o sétimo filho de um sétimo filho tem alguma ligação com Satanás [ um dos mitos judaico-cristão] em algumas áreas, e através desta ligação lhe são concedidos poderes e “habilidades especiais”.

      Irlanda

      O sétimo filho de um sétimo filho é dotado como um curandeiro.
      Existem vários casos , e um exemplo é um curandeiro irlandês em Scranton, Pensilvânia . Paul Joseph Cawley foi um sétimo filho de um sétimo filho e era conhecido na cidade de mineração de carvão por supostamente curar muitas doenças de pele. O sétimo filho de um sétimo filho é parte de um fenômeno mais geral conhecido como a “cura” (às vezes também chamado de “charme”) [ eu não sabia desta relação !!!! ]

      Reino Unido [ como explicou o Billy ]

      Acredita-se que o sétimo filho de um sétimo nasça com poderes mágicos.

      E, no Brasil, Paraguai, Argentina e América Latina [ como explicou o duk@ ]

      Acredita-se geralmente que ele vai ser um lobisomem , luisón ou “lobison”.

      bj, super sábado
      Fy

      Comment by Fy — 30/10/2011 @ 12:11 AM

      • Fy a wiki deu uma resumida drástica neste tema.
        Achei um ensaio bem mais completo e interessante, mas vou dividir em 2 comentários, uma porque é bem legal, com informações bem mais corretas e, outra porque é meio longo.

        Entre os humanos, é muito comum ouvir falar sobre histórias de Lobisomem.
        Em The Mysteries of Magic Éliphas Lévi escreveu: “Nós devemos falar aqui de licantropia, ou a transformação noturna de homens em lobos, histórias tão bem fundamentadas que a ciência cética usa como recurso às furiosas manias, fazendo brotar como animais de explicações”. Mas tais hipóteses são pueris, e não explicam nada.

        Licantropia vem ser a capacidade ou poder inerente a um ou mais seres humanos em mudar para forma de um lobo, ou manter seu caráter lupino. A palavra licantropia é muitas vezes usada genericamente para qualquer transformação de um ser humano em forma animal, embora o termo exato para isso seja tecnicamente “therianthropia”. Às vezes, “zoanthropia” é usado em vez de “therianthropia” (Guiley, 192). Guiley, R.E. (2005).

        O nome vem do grego λυκάνθρωπος: λύκος, lykos, que significa “lobo” e άνθρωπος, anthrōpos, que significa “homem”), é um ser mitológico, com origem em tradições européias, segundo as quais, um homem pode se transformar em lobo ou em algo semelhante a um lobo em noites de lua cheia, só voltando à forma humana ao amanhecer.

        No Brasil, os nomes mais conhecidos são: Lobisomem, Licantropo, Bruxo, Diabo Peludo (Norte de Minas e interior de São Paulo), Quibungo, Capelobo, Kumacanga (Pará), Curacanga (Maranhão), e também Hatu-Runa (Equador – América do Sul), El Chupasangre (Colômbia).

        Tais lendas são muito antigas e encontram a sua raiz na mitologia grega. Segundo As Metamorfoses de Ovídio, Licaão, o rei da Arcádia, serviu a carne de Árcade, a Zeus e este como castigo, transformou-o em lobo (Met. I. 237). Uma das personagens mais famosas foi o pugilista Arcádio Damarco Parrásio, herói olímpico que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias.

        Na Roma antiga já era mencionado pelo historiador Plínio, uma das tradições herdadas das antigas Lupercálias. Além de lobo, na Europa, ele, pode se transformar também em Jumento, Bode ou Cabrito Montês, e seus poderes se conferem incrível força e velocidades mercuriais.
        O Licantropo dos gregos é o mesmo que o Versipélio dos romanos, o Volkodlák dos eslavos, o Werewolf dos saxões, o Wahrwolf dos alemães, o Óboroten dos russos, o Hamtammr dos nórdicos, o Loup-garou dos franceses, o Mannaro dos Stregones italianos, o Lobisomem da Península Ibérica e da América Central e do Sul, com suas modificações simples de Lubiszon, Lobisomem, Lubishome; nas lendas destes povos, trata-se sempre da crença na metamorfose humana em lobo, por um castigo divino ou maldição de sangue.

        Para virar Lobisomem, em algumas lendas, basta que a mãe no momento de fúria amaldiçoe o filho. Em algumas fábulas o homem que se espoja numa encruzilhada onde os animais fazem espojadura, se torna lobisomem. Conta-se que o Lobisomem, sai à procura de meninos pagãos e, quando os encontra bebe seu sangue e depois os devoram, se o lobisomem vomitar, os meninos se transformam em lobisomens na próxima lua cheia. De acordo com a região, ele também é uma pessoa que foi amaldiçoada pelo pai, pela mãe, pelo padrinho ou madrinha durante o batismo, ou até mesmo pelo padre.

        Em algumas famílias que carregam ‘maldição de família’, a trigésima quinta vez que a décima terceira lua cheia tocar o filho ou filha mais velhos, ele(a) e todos os demais se transformam em lobos. Há também quem diga que um sétimo filho que tem seis irmãs mais velhas se torna lobisomem ao completar treze anos. Também dizem que o sétimo filho de um sétimo filho se tornará um lobisomem, e ocorre ainda, quando um casal tem sete filhos homens, o sétimo é o lobisomem. Este poder ou maldição pode ou não pular uma geração e assim ser passado de avô para neto ou de avó para neta.

        O fato é que existem várias maneiras de se tornar um lobo, e uma delas é nascer numa família Lupina.
        A lenda do lobisomem é muito conhecida no folclore brasileiro, e assim como em todo o mundo, os lobisomens são temidos por quem acredita em sua lenda. Algumas pessoas dizem que além da prata o fogo também mataria um lobisomem e o fator esotérico é que a prata é um metal lunar e a lua por si é quem dá vida ao lobisomem. Um homem assassinado por uma bala de prata se tornaria não um morto, mas um lobisomem. Outras regiões acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem.
        Diz-se do mito romani que os Awenydd, Juvacanão, Bagata ou Kaku faziam uma poção de cogumelos para virarem Djukel ou Lovenito, ambos lobos/lobisomens na linguagem dos Zíngaros.

        Quando a pessoa é branca, vira um cachorrão preto e quando é negro vira um cão branco. Alguns autores dizem que ele sai às madrugadas de sexta feira, em busca de ovos de galinha para alimentar-se, e por isso invade os galinheiros. Depois disso ele vai à busca de crianças de todas as idades para perguntar seus nomes, quem não souber falar, irá ouvir as seguintes palavras do lobisomem cigano: “Cavvi, av adré sasteem.Duvel, mi-duvve, tutti milos“ e depois é devorado. Se a vítima for vomitada em seguida, deve correr para o alto de uma colina ou montanha e pronunciar o ensalmo de frente pra lua, dizendo: “Youra, tikni youra si kolo, Sor si kolo”, caso contrário se tornará um lobisomem eternamente durante todas as últimas sextas feiras de lua cheia. Entre os Calón, dizem entre si que os ciganos mais velhos viram lobisomens quando a lua está fora de curso, e que eles viajam grandes distancias durante a noite, puxando a carruagem.

        continua…

        Comment by Renato — 30/10/2011 @ 1:40 AM

        • Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não o encontrar a cura até a décima segunda badalada desse mesmo dia ou noite, ficará lobisomem para toda a eternidade. No interior do estado de São Paulo, divisa com Minas Gerais, está localizada a cidade de Joanópolis, capital mundial do Lobisomem, com o maior número de avistamentos da fera registrados em uma só cidade até hoje, sendo que a segunda cidade com maior índice de aparecimentos é Ribeirão Preto, e quando se questionava acerca da razão da existência de tal coisa, as respostas eram unânimes: “As palavras dos batizados eram outras…” e mencionavam-se as razões conhecidas na lenda brasileira. Por vezes, quando as pessoas vinham de uma festa ou convívio, ou simplesmente vinham da horta, a pé ou de carroça, e estamos falando de 30 ou 40 anos atrás (ou mais), não raras vezes era ouvido um som repetitivo, como um trovão constante, de longe e associava-se isso aos lobisomens. Nas cidades menores ele batia nas portas e recebia uma colher de sal para ir embora em paz, caso contrário ele destruía a porta e a pessoa que não lhe deu a colher de sal.

          Desde há alguns anos para cá que não se ouve falar de um caso desses, mas ainda perduram na memória as histórias que nos contavam quando pequenos, como a do homem que conversava com os seus amigos no café, e deixa escapar: “Como me custa subir a serra da Ladeira de noite, com patas…”.
          Há referências muito antigas do lobisomem também na Itália e em Portugal.

          Aparece no Rifão de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):
          “Sois danado lobishomem, Primo d’Isac nafú; Sois por quem disse Jesus – Preza-me ter feito homem”. (Garcia de Resende, Excertos, por António Feliciano de Castilho, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1865, p. 24).
          É também mencionado no Vocabulario Português e Latino de Rafael Bluteau (tomo V, p. 195) e nos sonetos de Bocage:

          “Profanador do Aónio santuário, Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,
          Até findar no Inferno o teu fadário!” (Bocage, Obras Escolhidas, primeiro volume, p.122).

          Para quebrar seu encanto, em alguns casos, bastava que alguém fizesse nele um pequeno ferimento do qual saia pelo menos uma gota de sangue. Ou ainda, o acertasse com uma bala untada com cera de vela que queimou em 3 missas de domingo ou na Missa-do-Galo, na meia noite do Natal.

          Uma outra tradição refere-se aos lobisomens assim: “Os lubis-homens são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente uma encruzilhada, dando cinco voltas, espojando-se no chão num lugar onde se espoja-se algum animal, e em virtude disso transformam-se na figura do animal. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para que se lhes apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência”. (A. Herculano, Opúsculos, Tomo IX, Bertrand, Lisboa, 1909, p. 176-177).

          lobisomem

          Diz a lenda portuguesa que quando uma mulher tem 7 filhas e o oitavo filho é homem, esse menino será um Lobisomem. Também o será, o filho de mulher amancebada com um Padre.
          Sempre pálido, magro e com orelhas compridas, o menino nasce normal. Porém, logo que ele completa 13 anos, a maldição começa e ele ganha a companhia das Peeiras.

          Peeira ou fada dos lobos é o nome que se dá às jovens que se tornam guardadoras ou companheiras dos lobos. Elas são a versão feminina do lobisomem e fazem parte das lendas de Portugal e da Galiza. A Peeira tem o dom de comunicar e controlar alcatéias de lobos, e no Brasil ela é chamada de Pereira. A Peeira é o daemon ou musa inspiradora dos Lupinos.

          O lobisomem também é um corredor, sendo ele, um bruxo que tem que correr o fado. Em Bruxaria Tradicional, esta é a arte do Shapeshifting, a metamorfose bruxa, e o corredor é um ser mutante que pode assumir a forma de lobo, de cão ou outro animal. Quando se encontra um para quebrar o fado deve-se fazê-lo sangrar.

          Na primeira noite de terça ou sexta-feira, depois do aniversário, ele sai de madrugada e vai até uma encruzilhada. Ali, no silêncio da noite, se transforma em Lobisomem pela primeira vez, e uiva para a lua.

          Daí em diante, toda terça ou sexta-feira, ele corre pelas ruas ou estradas desertas com uma matilha de cachorros latindo atrás. Nessa noite, ele visita, sete partes da região, sendo um pátio de igreja, uma vila ou bairro, uma encruzilhada macho, uma encruzilhada fêmea, um cemitério, uma praça e uma casa. Por onde passa, zurze os cachorros e apaga as luzes das ruas e das casas, enquanto uiva de forma apavorante. Quem ouvir o som do uivo deve fazer a seguinte oração para que se for encontrado pelo lobo, este não faça um banquete consigo, mas busque um verdadeiro bandido para ser devorado, de acordo com os stregones Lupinos: “Io Evo He, condito mitis placidusque telo, supplices Audi pueros, Lupercus, Siderum Regina Bicornis, Luperca, Audi, Luna, puellas. Io Evo He!”.

          Antes de o Sol nascer, quando o galo canta, o Lobisomem volta ao mesmo lugar de onde partiu e se transforma outra vez em homem. Quem estiver no caminho dele, nessas noites, também deve rezar três Ave-Marias para não virar o prato principal.

          Dizem que, para quebrar o encanto, é preciso chegar bem perto, após ter feito as orações, sem que ele perceba, e abraçá-lo por trás dizendo: “Lhe desejo a melhor das sortes!”, porém, se houver luta e a vítima for arranhada ou uma gota de sangue do Lobisomem atingir a pessoa, ela também virará Lobisomem, contudo, ninguém nunca sobreviveu para atestar o funcionamento disso.

          Por Pio Aenéas

          ———-

          Ficou beeeem comprido, mas não menos interessante.
          abraço
          (tio) Renato

          Comment by Renato — 30/10/2011 @ 1:47 AM

          • Caramba, lendo novamente reperei que o último parágrafo tem tudo a ver com as palavras do Billy, no post :

            Dizem que, para quebrar o encanto, é preciso chegar bem perto, após ter feito as orações, sem que ele perceba, e abraçá-lo por trás dizendo: “Lhe desejo a melhor das sortes!”, porém, se houver luta e a vítima for arranhada ou uma gota de sangue do Lobisomem atingir a pessoa, ela também virará Lobisomem,…

            Billy:

            Percebi , na prática , que o sábio Jedi acerta em cheio ;

            o ódio nos cega para aquilo que temos dentro de nós e só nos faz ver aquilo que o outro tem de ruim .

            Assim , vamos nos tornando piores , à medida em que combatemos o outro com raiva .

            Não enxergamos que “ a força ” está dentro de nós ;

            – quando a sentimos , as coisas se esclarecem , o inimigo é fraco e por isso nos ataca e ao revidarmos mostramos a ele a nossa fraqueza .

            hauhauhaHua > não foi intencional, mas valeu!
            (tio) Renato

            Comment by Renato — 30/10/2011 @ 1:51 AM

      • O número 7 também tem uma importante referência para mim. Esse era o número da camisa do Garrincha no Botafogo e é até hoje a camisa do Botafogo mais vendida, ao contrário dos outros clubes, cuja a mais famosa é a 10. Inclusive, a superstição é um traço característico de sua torcida; um exemplo: quando do último título brasileiro conquistado pelo Botafogo em 95, o patrocinador era o 7 UP (marca de refrigerante); 95 9+5 = 14, 14 : 2 = 7…

        Comment by billy shears — 30/10/2011 @ 5:19 AM

        • Bons tempos, Billy, bons tempos!
          tio Guz

          Comment by Gustavo — 05/11/2011 @ 11:28 PM

  9. Oi pessoas neste “enfim” que é sexta-feira.
    A referência ao Yoda não podia ser melhor. E me fez pensar sobre o messianismo, o ódio, a competitividade e nossos inúmeros estados de apatia diante de injustiças, como as que a Carol enumerou. E foi lembrando o Yoda que achei que precisamos ir mais a fundo em relação ao messianismo e ao ódio. Vamolá:

    – Essas visões que você tem…
    – São visões de dor… sofrimento… morte.
    – De você falando está, ou de alguém que conhece?
    – De alguém.
    – Próximo a você?
    – Sim.
    – Cuidadoso deve ser quando sente o futuro, Anakin. O medo da perda é um caminho para o Lado Negro.

    – O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento.

    …arremedando Yoda: …e o sofrimento leva ao medo e.. o ciclo recomeça.

    Desde que o homem resolveu construir sua historia, estamos re-ciclando esta fórmula. medo-raiva-ódio-sofrimento=medo. Assim sofremos as consequências dos mais variados messias.Entre super-heróis e super-“regimes” usufruimos de religiões absurdas, leis absurdas, medicinas absurdas, monarcas e presidentes assassinos e absurdos, economias absurdas, e mais absurdo a dar com pau. Crianças absurdas…

    Eu acho que o Billy escreveu a frase da nossa época, HuaHua: a frase-messias,Huahhauaha: Não existe utopia , existe o Fazer , existe o Agora !

    A pergunta que fica é: será necessário estar diante da morte ou do fim para, enfim, perceber que medo algum faz sentido?

    téjá
    (tio) Renato

    Comment by Renato — 29/10/2011 @ 7:04 AM

  10. um puta artista brasileiro:

    que eu nem sei se teve um reconhecimento a altura.

    bom sabadão pra nós, a noite vem que vem vindo linda.

    TocaYo

    Comment by TocaYo — 30/10/2011 @ 7:29 AM

  11. Muito legal teu blog e a turma que comenta tambem.Só quem teve uma infancia conturbada consegue entender e sentir o sofrimento do Roland Orzabal. Por esta razão sempre me identifiquei muito com o Tears e com Cobain.

    Gracias Suzanne.

    Comment by Bruno — 31/10/2011 @ 9:21 AM

    • É verdade amigo, a Suzanne pega mesmo nesta música.
      E foi bacana teu comentário. Pra começar é um excelente sinal de que estas memorias desagradáveis podem ser superadas em sua influência negativa. O Rolland canta, grita,explode, huahua, e com certeza isto deve lhe fazer um bem danado. Além do que, foi uma canalização, ele desviou esta mágoa pra um canal sublime, que é a arte.

      Eu acho que a vida, por ela mesma abriga uma série de metamorfoses que se desdobram à medida que através dela nos apoderamos de significados diversos através da experiência. É como se conseguíssemos significar de muitas outras formas , dentro dagente, as experiências dolorosas .
      Não que agente deva ‘tentar’ domesticar todos os demonios, não sou a favor disto. É bom mantê-los nos recantos escondidos da casa, porque muitos deles são justos, e são um alerta, uma defesa. Catárses psicológicas (ou qualquer outra)são lavagem mental ou historia pra boi dormir. Lembranças sempre existirão, transformá-las em amigos camaradas sim, é uma tentativa válida, tratá-las com o devido respeito e até com carinho quando elas nos visitam entre o tumulto apavorado da insonia e mesmo naqueles momentos entre a familiaridade da convivência, onde aparecem pra jantar conosco ao redor da mesma mesa.

      Abraço, sinta-se bem vindo e aproveite o espaço como quiser,
      tio Guz

      Comment by Gustavo — 01/11/2011 @ 3:11 AM

  12. Me lembrou do tema dos álbuns conceituais do Kamelot, Epica e The Black Halo, baseados em Fausto. Se alguém acontecer de ser chegado em metal melódico com certeza conhece =P
    O lance com esses álbuns é que por praticamente toda a história, há um evidente e exarcebado dualismo, o familiar bem x mal, pureza x luxúria, fé x razão. Ariel, o personagem principal, é um alquimista que, insatisfeito com as limitações de seus estudos, parte pelo mundo em busca da Verdade que o elude, deixando para trás sua amada Helena e negando Deus por Suas limitações. Insatisfeito com a busca infrutífera, ele decide tirar sua vida quando lhe aparece uma visão angelical, Mephisto, caído do Paraíso, que lhe oferece absolutamente tudo que ele possa desejar em vida, em troca de sua alma na morte. Não convencido, Ariel hesita e Mephisto lhe oferece um opulento tira-gosto, mais tentado, Ariel concede ao acordo com uma condição, a de que a troca só ocorra se durante essa vida de maravilhas Ariel se sentir tão genuínamente extasiado que queira ficar naquele momento para sempre. Mephisto cede ao acordo modificado.
    No mesmo dia, coincidentemente, Ariel reencontra Helena, que esteve procurando por ele por esses anos, e os dois passam a noite juntos. Mas com sua determinação renovada após o acordo, e com seu novo poder, Ariel parte novamente, considerando sua busca mais importante que seu amor. Helena, arrasada, se afoga num rio, matando também a criança que não sabia que havia concebido. Ariel vê o ocorrido em sonho, e confirma a realidade, mas embora angustiado, não desiste de continuar, acreditando que sua resposta justificará a morte de Helena. Mephisto o critica por sua dor, explicando que toda emoção humana é passional, e destrói. Ariel culpa Deus sua tragédia e acredita que está além da rendeção.
    Aqui pega mal pra Mephisto, que tenta seduzir Ariel com Marguerite, quase idêntica a Helena, e consegue. Mas Ariel depois reconhece estar amando uma sombra e deixa Marguerite também. Com sua inocência estilhaçada, Ariel se pergunta como tantos horrores puderam resultar de suas boas intenções, culpando agora a fragilidade humana e concluindo que não pode encontrar suas respostas nesse universo, apenas no Paraíso. Então ele é atingido por sua realidade: por seu acordo pecaminoso com Mephisto, ele nunca entrará no Paraíso. Derrotado, ele chama por Deus.
    Sem nada mais a perder, Ariel decide confrontar Mephisto, sem medo de seu futuro selado. Deixando o anjo e tudo que ele lhe presenteou para trás, Ariel se firma em viver uma vida de pureza e bondade como Helena, não pelo prêmio divino que nunca receberá, mas apenas pelo o que essa vida é.
    Mas refletindo acerca da vida humana, Ariel percebe que a dicotomia bélica de seu interior está presente em todos, e que apenas o amor a transcende, o amor, que sempre teve, é a verdade que sempre buscou, a verdade que ele mesmo criou. Nesse momento, Ariel sente-se genuínamente extasiado e seu acordo com Mephisto é consumado. Enquanto sua alma deixa seu corpo, Ariel vê sua vida com clareza. Ele vê que a dualidade é o que constitui, não o que condena, o homem. Que cada homem tem sua crença, e não é a crença em si que o liberta. Que ele é o mestre de seu próprio destino, que o ele define o significado de sua vida.
    Com essa visão final, a alma de Ariel parte, mas não para Mephisto. Tendo rejeitado a submissão ao mal, mesmo fadado à danação, Ariel consegue se redimir, enfim, e junta-se à Helena no Paraíso, enquanto Mephisto, derrotado, condena-se ao inferno.

    Well, é fácil interpretar a história como um sermão poeirento de bem e mal, mas a percepção final de Ariel, creio eu, expõe o que toda a jornada significa: um conflito interno entre a crença dualista de Ariel e sua razão. Nos versos finais ele afirma “eu sou o deus em minha história”. Nesse ponto a realidade do Deus de sua crença se torna irrevelante, e a existência de um BEM ou um MAL distintos, inverossímil para sua própria natureza. Sua redenção foi sua própria compreensão, nunca negada nem entregue por seu Deus.
    O amor era a única coisa inegável e inexpurgável em sua vida, e ainda sim ele buscava uma verdade-além, por quê?
    Por que fazemos isso? =P

    Anyway, esse é o ponto da história: “eu sou o deus em minha história”. Independentemene de sua crença, de você PENSAR estar à espera de um messias, o messias é você. A espera é a verdade que você traz.

    Vou deixar um vídeo com a música final da história, Memento Mori, quem sabe algum neófito ao estilo acabe gostando =)

    Some day we may come to peace
    With the world within ourselves

    E perdão pelo longo post e curta explicação, mas precisava de background =P

    Comment by Lotus Eater — 31/10/2011 @ 1:26 PM

    • Bom dia segunda chuvosa! êta Uba véio de guerra.
      Mas a chuva que não assustou o Steven Tyler não vai assustar o véio aqui, ‘hehe’, como diz o Billy.
      E agora vou usar o ‘ah’ … da Fy – que pegou do Tocayo ou vice-versa. Ah, mas é claro que a Lotus é magia. E desta ópera-metal-rock (não é?): mais uma adaptação fantástica de Goethe, eu quero sublinhar o The Haunting, “The Haunting”, com a participação de Simone Simons, da banda Epica (que adotou este nome devido ao album), fazendo um formidável dueto com Roy Khan (vocalista do Kamelot), o qual representa Ariel em todas as faixas. É bem legal pra quem curte, ouvir a sequência correta das faixas, uma história muitíssimo bem contada.
      Lá vai o The Haunting:

      beijo a todos e à Lotus Eater,
      tio Guz

      Comment by Gustavo — 01/11/2011 @ 2:40 AM

      • Hey Guz!

        Yeah, acho que ópera-metal-rock é o termo mais acertado, apesar de os próprios artistas chamarem mais humildemente apenas de álbum conceitual. E imagino que a jornada do Epica e do The Black Halo tenha sido tão contemplativa quanto criativa para o Roy, sendo que ele citou conflitos espirituais para sua saída da banda, assim como exaustão.
        E quanto ao clipe de The Haunting, adiciono como outro bom motivo para dar um zoiê, além do fantástico dueto, o detalhe de que a Srta. Simons tem, de quebra, as feições de uma deusa grega hehe.

        Beijo pra tu =)

        Comment by Lotus Eater — 09/11/2011 @ 1:02 PM

    • Ah… sua danada! Eu falei pro Billy que ia fazer um post: Kadê a Lotus! ? hhahahahah

      Genial, a lembrança, Lótus, eu tava lendo e assistindo os vídeos. [ seu e do Gus ].

      Vc deu uma olhada , aqui no Wind, em um post que eu fiz, dropando o mesmo tema, A banalidade do mal ?

      Pera q eu vou colocar o link.

      Comment by Fy — 01/11/2011 @ 11:11 AM

      • Aqui:

        https://windmillsbyfy.wordpress.com/2010/07/17/a-banalidade-do-mal/

        Poisé, qdo vc sugeriu o Kamelot, na mesma hora pensei no Sympathy For The Devil do Mick Jagger e do Keith Richards.depois vou colocar todo o significado das estrofes. Mas meu “achado” na época em que fiz o poster, foi a obra prima que inspirou os Stones. [ sei que voce vai gostar ] Foi o livro “O Mestre e Margarida” do estrebuchadamente temeroso [ com razão ] Bulgákov , coitado, sob o jugo de Stalin… o monstro.

        Nascido em Kiev , na Ucrânia , filho de um professor de teologia , Bulgákov estudou medicina e participou da I Guerra como voluntário da Cruz Vermelha .
        Após a revolução , o jovem médico teve o azar de servir do lado perdedor , o dos “brancos” ou ” contrarrevolucionários ” , contingência que o tornaria suspeito aos olhos dos vitoriosos .

        Isso , bem como traumas de batalha , hipocondria e ataques de pânico , resultou em crises que o impediam frequentemente de trabalhar e até de sair de casa .
        A carreira literária de Bulgákov – que , em vida , era mais conhecido como dramaturgo – só começou de fato depois dos 30 anos , com um romance sobre a guerra civil que , apesar de , até certo ponto , simpático aos derrotados , agradou , numa versão dramatizada , ao próprio [ monstro ] Stálin .
        Seu talento beneficiou-se da efervescência criativa na Rússia dos anos 20 e 30 ,que , a despeito de ter sido esmagada pelo estado , contou com prosadores geniais como Isaac Bábel , Evgueny Zamiátin e Andrei Platónov . [ copiei e não conheço nenhum…]

        Mas , como escreveu sua obra mais ambiciosa e realizada ciente de que não a veria publicada , o autor pôde dedicar-se a ela sem ter de se preocupar com as restrições oficiais nem se submeter à autocensura .

        Por mais que se enraíze num lugar e período específicos , O Mestre e Margarida é uma fantasia de alcance universal .

        A sua trama , ou melhor , tramas , tem como ponto de partida a aparição , num entardecer quente de primavera , do diabo em Moscou , a capital , então , de uma pretensa utopia racionalista que promovia o ateísmo .

        O demo , acompanhado de figuras esquisitas que incluem um imenso gato preto adepto do xadrez , da vodca e das armas de fogo , ingressa nos círculos literários locais .

        Serpenteando com humor magistral entre tamanhos e tão diversos despropósitos , o romancista multiplica sabás de feiticeiras num perpétuo carnaval que não apenas satiriza o comunismo e a ideia de uma sociedade perfeita , como põe em xeque toda a condição humana .

        Como mina que explode décadas após ter sido enterrada , a obra e seu autor conquistaram postumamente uma celebridade que , além de merecida , transpôs as fronteiras de sua terra natal .

        O romance trata da luta entre o bem e o mal, inocência e culpa, racional e irracional, ilusão e verdade, examinanado temas como a responsabilidade frente a verdade quando a autoridade tenta negá-la e a liberdade de espírito num mundo que não é livre.

        Fala também da relação entre Jerusalém e Moscou. Há forte influência do Fausto de Goethe, do qual a epígrafe é tirada. Em 1933, o nome do protagonista ainda era Fausto.

        Há diversas possibilidades de leitura do livro, como comédia de humor negro, como profunda alegoria místico-religiosa, como mordaz sátira da Rússia soviética, mas também da superficialidade das pessoas em geral.

        Apesar disso, não há nostalgia quanto à Rússia tsarista, que só é mencionada uma vez, pelo próprio diabo. Alguns também o vêem como romance de formação de Ivan Biezdomni, que se torna, de poeta medíocre, discípulo do Mestre.

        Woland [ the devil ] não é visto em aberta oposição a deus, mas como o ser que pune a mesquinhez e a covardia (é freqüentemente dito no livro que a covardia é a pior das fraquezas).

        A mais famosa citação do livro é “os manuscritos não queimam” (рукописи не горят).

        Ela faz referência a censura da União Soviética dos anos trinta, e tem cunho autobiográfico.

        Os diários de Bulgákov foram apreendidos e depois devolvidos, ocasião em que o romancista os queimou.

        Anos depois, soube-se que, enquanto apreendidos, eles haviam sido copiados. Além disso, os primeiros manuscritos do Mestre e Margarida foram queimados por medo dessa censura.

        Consta que Mick Jagger se inspirou em O Mestre e Margarida para compor Sympathy for the Devil .

        E Salman Rushdie , que , sob sua influência , escreveu Os Versos Satânicos , descobriu , ao ser condenado à morte pelo líder supremo da República Islâmica do Irã , o aiatolá Khomeini , que mexer com o diabo desperta as iras tanto de ateus convictos quanto dos que agem em nome de algum deus .

        Pearl Jam com Pilates também.

        Dá uma olhada neste pedacinho do filme:[ também teve filme… hahahah] o comecinho é chato, mas é demais na continuidade.

        bj
        Fy

        Comment by Fy — 01/11/2011 @ 11:52 AM

        • Oh yeah, fiquei muito interessada no livro. Mas bastaria tu ter dito que inspirou Rushdie e Rolling Stones =P
          Fisguei nesse constraste entre as descrições de Moscow e Jerusalém, que acho que foi o Renato que comentou bastante sobre nesse post que você passou, de como os eventos da vida de Jesus são contados realisticamente, enquanto a civilização moderna é um literal mundo assombrado por demônios.
          Vou ver mais uns pedaços do filme antes de cair na cama, quero ver o que acontece nesse sabá hehe.

          Beijo querida!

          Comment by Lotus Eater — 09/11/2011 @ 1:37 PM

  13. Boa tarde moçada,
    Hoje vou dar uma de Fausto por aqui.Mas é que lendo voces, me lembrei do Marques Patrocínio, no início do post da Cigarra e da Formiga:

    x

    Quem nunca foi ameaçado e coagido pelas fábulas infantis ?
    Exatamente : ameaçados e coagidos , todas as fábulas contadas mundo afora para as crianças não são mais do que instrumentos de coação e ameaça , a moral aceita é imposta como a correta forma de existência e a única verdade da vida são os atos do herói ou heroína nessas curtas narrativas . – Definição geral de fábula:

    Uma fábula é um conto em que as personagens falam sendo animais e que há sempre uma frase a ensinar – nos alguma coisa para não cometermos erros .

    x

    Por mais fenomenal que tenha sido a imaginação de nosso amigo Goethe, não há como negar a lição de moral religiosa, proveniente da própria lenda.
    Nem sempre o nascimento de uma lenda é anunciado com fanfarra. Algumas vezes os grandes épicos tem origens bem simples.
    Em 1587, um delgado livrete apareceu em Frankfurt. Contava a “verdadeira história” do Dr. Faustus, um estudioso que vendeu sua alma ao Demônio. O Diabo prometeu servir Faustus, responder todas as suas perguntas e nunca mentir. Em retorno, Faustus renunciaria à Deus e cederia seu corpo e alma ao Diabo depois de exatamente 24 anos. Faustus desfrutou de vastas riquezas e prazeres proibidos, viajou pelo universo e aprendeu os segredos do cosmos. Mas no final, o Diabo recebeu o que lhe era de direito.

    A horrenda morte de Dr. Faustus alertava seus estudantes a não seguirem seu exemplo.

    Desde então, Fausto tem fascinado a imaginação ocidental. Na verdade todo mundo queria era fazer o mesmo pacto! HuaHuaHua Sua estória foi contada e recontada – primeiro em teatros de marionetes e depois em tragédias, poemas, balés, óperas, sinfonias, romances ,filmes etc…E com a mudança do mundo, também a estória de Fausto mudou. Tem o Christopher Marlowe, que em sua tragédia Dr. Faustus (1604), narra sobre os perigos da soberba. O arrogante Dr. Faustus aprende tudo e decide que somente o conhecimento da magia negra tem valor. Apesar de temer a danação, sua cobiça, luxúria e covardice não permitem que ele se arrependa até o momento em que é arrastado aos infernos. Parece Esopo e suas fábulas. Séculos mais tarde, o libreto cubista de Gertrude Stein, Dr. Faustus Lights the Lights (1938), fundia o mito faustino à invenção da lâmpada. O romance Dr. Faustus (1947), de Thomas Mann, situa a maldita jornada de um compositor em busca da glória artística, durante uma Alemanha imersa na escuridão do nazismo. Hoje, o tema de Fausto ainda inspira musicais, filmes e até videogames.

    A versão mais famosa da lenda de Fausto é a de Goethe. Seus poemas dramáticos Fausto, Primeira Parte (1808) e Fausto, Segunda Parte (1832) contam sobre um homem que deseja transcender sua humanidade… O Fausto de Goethe é uma grande alma torturada pelos estudos e carente de: experiências. Seu acordo com o demônio é diferente. O demônio Mefistófeles pode ganhar a alma de Fausto com a condição de conjurar um momento tão maravilhoso que Fausto deseje que dure para sempre. Claro que Goethe se atreve, mas sómente ao limite máximo, não ultrapassa. Na segunda parte,Goethe acaba invocando o deus ex-machina no último instante, que perdoa todo mundo num total e arrebatador ato de clemência e… cinismo cristão, permitindo que Fausto morra feliz para sempre… e Goethe..se permite então, não escorregar.

    abraço,
    (tio) Renato

    Comment by Renato — 01/11/2011 @ 11:06 AM

  14. Trilha do feriado do dia de finados:

    Refletindo aqui sobre a morte da palavra já dita que desagua no rio do silêncio das mentes daquele que diz e daquele que ouve.

    Comment by billy shears — 03/11/2011 @ 1:15 PM

    • Quanta poesia existe nesta terra linda! Tantos a ouviram, tantos a dizem.
      Billy, me fez lembrar:

      antigamente, quando escrevia, deixava entrever minha ternura mas com
      muito medo. queria que todos os meus romances cheirassem a sangue e
      viessem rotulados com o carimbo de: machos pra burro. foi preciso que
      chegasse aos quarenta anos para perder todo o terror de minha ternura a
      derramar por minhas mãos que queimam de carinho (quase sempre sem
      ter ninguém para o receber) a simplicidade deste meu livro. leia-o quem
      quiser. de uma coisa estou certo: não tenho nada de que me desculpar
      perante o público. apresento, pois, rosinha, minha canoa

      *
      *
      *

      rosinha continuava:

      – você demorou tanto, zé orocó… só queria que você visse o sacrifício que fiz para
      agüentar viva a sua volta. que é isso?

      a canoa olhava-lhe nos olhos. parecia querer devassar sua alma.

      zé orocó não sabia mais o que conversar com rosinha. fazia tanto tempo e tinha
      adquirido uma certeza lá na cidade de que nunca mais isso aconteceria.

      – então eu ainda sou louco. louco, tal como um homem que andava com os jornais
      debaixo do braço, como outro que se zangava toda hora com deus.

      – louco, você? só porque consegue entender as árvores ou falar com as coisas?
      bobagens! loucos são os outros homens que perderam a poesia de deus, que
      endureceram o coração e nem sequer podem entender os próprios homens. esses
      são loucos.

      ———————————-

      então foi zé orocó quem repetiu uma frase que tinha ouvido de alguém:
      – eu preciso desabrir o coração, rosinha.
      – pois então desabra, zé orocó. nem coração de mãe pode escutá-lo com tanto
      prazer.
      ele contou tudo. do jeito que fora tratado no hospício, dos tratamentos bárbaros,
      das injeções, dos choques, dos castigos, das aulas, onde uma árvore era uma
      árvore, das prisões em lugares sem luz e sem higiene, das camisas de força…
      – e você pensava na rosinha, às vezes?
      – quando podia e escondido. se eles me vissem pensando me pegavam e lá vinha o
      martírio. só no escuro e no sonho era mais fácil.

      ——————————————
      zé orocó ergueu-se, como se não tivesse alma. como se aquela noite magnífica,
      cheia de estrelas, tivesse morrido. ele mesmo adquirira toda a solidão de tudo que
      passara na vida, e de uma só vez, num tamanho, num infinito eterno.
      rosinha então derramou duas pequenas lágrimas ao ver o amigo afastando-se. juntou toda a ternura do coração e olhou para o céu. começou a sua prece de despedida.
      “senhor meu deus!
      obrigado por tudo! obrigado por me haver feito nascer um belo pé de landi!
      obrigado por ter deixado os índios me descobrirem! obrigado porque os índios me
      fizeram uma bela canoa! obrigado por todos os belos entardeceres, ao por do sol,
      que tive e que não verei jamais!
      obrigado por ter resistido sempre aos grandes banzeiros do rio!
      obrigado porque meu rio sempre foi o araguaia, o rio mais lindo do mundo!
      obrigado por ter tido somente dois donos: curumaré, a quem servi com toda a
      minha alma, e zé orocó, a quem amei com todo o meu amor!
      obrigado pela paciência com que me fez suportar os grandes momentos de
      saudade!
      por tudo obrigado, e ainda mais; por deixar que eu morra como sempre desejei,
      perto de quem sempre amei. obrigado, meu querido deus, porque a vida apesar de
      tudo é uma beleza!”
      calou-se, porque sua voz era apenas uma fragmentação de ruídos. mesmo se
      quisesse não poderia falar mais.
      ficou esperando a volta do homem e esticando os velhos ouvidos para acompanhar
      o chiado dos passos de zé orocó, caminhando pela praia.

      *
      *
      *

      – vamos, zé orocó, que o brasil é um mundão querido e sem porteira. meio-dia a
      gente come uma carninha em qualquer canto que tenha beleza.

      e foram os dois, toque-toque-toque. deu então vontade em zé orocó de cantar.

      olhe, que fazia muitos anos que não sentia aquele desejo! abriu o peito, cantando
      as cantigas de antigamente, quando rosinha pedia. e todas as canções tinham a
      canoa no meio.

      “enquanto o tempo não voa,
      rosinha, minha canoa,
      que saudades da lagoa
      onde a gente ia pescar…”

      *
      *
      *

      um começo de alegria brotava no seu peito. agora, quando se lembrasse das
      coisas, só pensaria em pedaços bonitos.

      foi de tardinha que se deu o grande milagre. amarrara a egüinha passeadeira e fora
      fazer fogo. iria cozinhar mais um pedaço de carne no espeto para comer com
      farinha. a egüinha mastigava o capim verde e tenro.

      a tarde descia naquela mania de nunca ter pressa, na sábia compreensão da
      natureza. zé orocó sentou-se no chão, depois se deitou no capim. apanhou um brotinho e ficou mastigando. “sofrê”
      fazia ninho num pé de cagaia. jaó dava pios de tristeza por todo canto.

      – que bom, não? deu um pulo porque ouvia voz e não dissera nada.

      – que espanto é esse? não podia crer; a egüinha estava falando.

      – você também? eu, não, você…

      aí zé orocó riu. mas riu com vontade, com aquela vontade reprimida durante tantos
      anos.

      parou, desconfiado ainda.

      – então, você também fala? que bom! aproximou-se mais do animal. o coração
      rebentava de alegria. tudo voltava de novo. poderia acreditar em calamantã, em
      urupianga. estava livre. livre para ver beleza, desde um zumbido de irapuã até ao
      nascimento de uma folhazinha. o céu voltara a ter todas as estrelas e o vento
      aquela carícia de mão. até os cabelos brancos voltariam a ter beleza.

      – graças a deus que sou louco de novo. obrigado, chico!

      então não se conteve. apertou a cabeça da egüinha contra o peito
      você gosta do nome de rosinha?

      – não pode ter nome mais bonito!… zé orocó engoliu em seco e era a última vez
      que faria isso.

      – então você vai se chamar rosinha! e estreitando mais a cabeça da egüinha contra
      o peito que se renovava, esmagou ali brandamente um mundo de ternuras.

      *
      *
      *

      – você vai ser rosinha, meu amor.

      ÊEEEta brabera braba: José Mauro de Vasconcelos, quem já esqueceu?

      Abraço
      (tio) Renato

      Comment by Renato — 06/11/2011 @ 12:25 AM

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