windmills by fy

08/07/2014

by Míriam Waltrick – II

Filed under: Uncategorized — Fy @ 7:45 AM


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Um texto escrito por uma das pessoas mais autênticas que conhecí.

 

Um texto que fala muito sobre a aventura de crescer naquilo que se é realmente –

um texto que fala sobre ela, sobre mim, ou sobre todos aqueles que se buscam

nesta experiência tão labiríntica que é  viver .

 

 

 

 

 

One more time at Windmills,

 

 

– Míriam Waltrick :

 

 

 E este texto dedico, especialmente, à minha filha, Isabelle Waltrick – uma autêntica “obra-prima” parida por uma “rascunha”…

 

E quem disse que quem puxa os seus não “regenera?” 

– Miriam Waltrick

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           by   Miriam Waltrick

http://ontheroadsince72.wordpress.com/2013/08/05/nietzsche-selvagenzinha-alguem/

 

Fy

 

 

 

 

 

 

 

 

23 Comments »

  1. Fy, a Miriam é nossa alma-gêmea!!!!!!!! Não sei nem o que falar, caramba, mas vou tentar.Eu achoooo que algumas pessoas nascem “nietzsch” , porque jamais conseguem deixar de ser nietzschianas, – nem com todo fucked-effort do mundo deixam de ser maravilhosas…. like us…., of course…. – por mais fudidamente difícil que seja. É amiguinhas, nada grandioso é fácil… (modéstia à parte). Milllll e trezentos beijos pra Miriam e pro desenhista que conseguiu fazer o retrato dela tão bem… – onde vc achou , Fy?

    bjitos pra tods
    Juliana

    Comment by Juliana — 08/07/2014 @ 9:36 AM

  2. Olha Ju, foi difícil achar, – até esquecí de colocar no post – os desenhos são da Kelly Smith. Mas é muito parecida, mesmo. E quanto ao resto, é isto mesmo que eu escreví. E eu às vezes – às vezes – encontro pessoas assim, … acho até que agente “se reconhece” pelo mundo. Pessoas que jamais ficam em cima do muro, pessoas que “são”.

    Além do que, quando ela escreve, vc vive e revive, se perde e se encontra nas linhas e por fim tem a sensação de que não está sozinha, que existe mais alguém que como você, é sempre meio deslocada, meio diferente, mas…. que não deixa de “ser”.

    bjitos, Ju

    Comment by Fy — 08/07/2014 @ 10:09 AM

  3. A consciência da busca por si mesmo não tem data precisa para começar, mas uma vez iniciada não cessará jamais. Digo consciência da busca, porque ela sempre nos acompanhou, ainda que de forma inconsciente, durante todas as fases anteriores ao início do despertar da consciência. A busca por si mesmo é a experiência mais profunda, rica, ousada e emocionante à qual podemos nos submeter. Trata-se de um processo paradoxal, difícil, em muitos momentos um verdadeiro labirinto, em outros períodos, de “estrada” arejada, luminosa e arborizada.Quando a consciência desperta para a busca de si mesmo, você fez a primeira grande descoberta: você se conhece pouco, bem menos do que acreditava conhecer…Essa consciência pode causar muita dor em algumas pessoas, curiosidade em outras e um total redirecionamento de vida para aquelas que aproveitam melhor a oportunidade, independentemente de em qual grupo estejam.O curioso desse processo é que você passa a ter uma sensação de que sabe cada vez menos à medida que sabe cada vez mais a respeito de si. É aí que nasce a verdadeira humildade (no melhor dos casos); passamos a nos reconhecer não como melhores ou piores que os outros, mas diferentes. Reconhecemos que não somos nem tão bons quanto gostaríamos, nem tão maus quanto nossas culpas nos fazem parecer. Tornamo-nos então, tranquila e simplesmente : nós mesmos. É um renascimento! E a Míriam Waltrick tem razão: Nietzsche é um amigo pra todas as horas.
    Isabel

    Comment by Isabel — 08/07/2014 @ 12:30 PM

    • Oi Bel!

      Sim, Nietzsche é um amigo pra todas as horas e um desafio também ! E quanto à consciência, a busca sem fim pelo conhecimento de nós mesmos, é de fato surpreendente, imprevista, claro que às vezes, dolorosa, outras magníficas, mas…. não é isto a vida?
      bj
      Fy

      Comment by Fy — 10/07/2014 @ 5:19 AM

  4. Bom Dia, moçada, dia indeciso entre o sol e a chuva, entre um palpite e outro, sem palpite nenhum pra quem gosta de futebol, Jogo triste, parece que consagrando a tristeza da copa ou a tristeza que nos trouxe a copa.
    Mais um texto vivo da Miriam. – Vivo. Alguem falou que se movimenta dentro de seus parágrafos e se reconhece em suas sílabas, seus intervalos, seus gritos de solidão, de encontros e de guerras. E este é seu dom. Escrever assim.

    Um trecho bonito, talvez um recado:

    Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.
    – ninguém, exceto tu, só tu.
    Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
    Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
    Onde leva?
    Não perguntes, segue-o!

    Friedrich Nietzsche

    um beijo a todos, à Miriam, à Fy e, sigamos… on the road!

    tio Guz

    Comment by Gustavo — 09/07/2014 @ 1:22 AM

    • Nossa Gustavo, seu comment foi uma profecia….

      E, como sempre o trecho é sublime!
      bj
      Fy

      Comment by Fy — 10/07/2014 @ 5:16 AM

  5. Bom eu sou fã da Miriam, e este texto me lembrou um livro que lí a tempos atrás, “Assim amei Zaratustra” , vou deixar um trecho e o link. O texto é meio longo, mas é um presente pra todos e pra ela. Guentem:

    “- Olhemo-nos face a face: somos hiperbóreos

    . Sabemos muito bem quão remota é nossa morada. Nem por terra nem por mar encontrarão o caminho dos hiperbóreos. Além do norte, além do gelo,além da morte: nossa vida, nossa felicidade. Nós descobrimos essa felicidade, nós conhecemos o caminho… Retiramos essa sabedoria dos milhares de anos no labirinto.

    Antes viver no meio do gelo que entre virtudes e outros ventos do sul. Fomos bastante corajosos. Não poupamos a nós mesmos nem aos outros, mas levamos um longo tempo para descobrir para onde direcionar a nossa coragem. Tornamo-nos tristes. Tínhamos sede de relâmpagos; mantivemo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos. Nosso ar era tempestuoso, nossa própria natureza tornou-se sombria: pois ainda não havíamos encontrado o caminho. A fórmula de nossa felicidade: um sim,um não, uma linha reta, uma meta.- É preciso um ponto para fazer um círculo e dizeis linha reta ? Para quê? Ouço ópera e me parece que jamais fui à Itália; jamais frequentei a roda dos ursos e das águias. Sou indignada, mas tenho argumentos fracos diante dos resignados. A vida! Quereis lembrar-me dessa vida? Prantearei mais, atravessarei quantos arco-íris, quantas tempestades, quantos abismos? Tendes obrigação de cicatrizar-me as feridas, já que minha sede de relâmpagos tornou-se um vício assaz perigoso. Meu corpo é frequentado por outras mulheres… Perdi-me na morte suicida ou abandonei os hiperbóreos?” “Mas sempre fui pobre, Michael! Bela é minha alma, amigo! Posso vê-la e bebê-la sem medo de morrer. Quando suspiro no crepúsculo é quando minha alma já se deitou. E eu aqui, isolada do mundo, não me deito sem um comprimido. Mas minha alma já se deitou junto ao sol e dele se ressente que queimada numa estrada nunca mente e o caso é que a verdade é que dói enquanto a mentira rói. Hipócritas! Não o sou, juro! Se pudesse mergulhar nesse diálogo com a discípula delirante, eu logo o convidaria para ir a uma taberna. Vamos ler? E vós dizeis: para quê? Que fareis com tantos livros? E responderei: serei um milésimo da população mundial. Serei uma pensante. O mundo não tem razão nenhuma de existir e é absurdo que exista! A consciência é um ser e o ser é um nada, diria Sartre. Atravessei multidões de olhos vedados à procura de gente. Ninguém havia. Todos e nada.Quando olhei o horizonte, só vi máquinas andando sem rumo. Pessoas mortas vivendo sem passear pela vida. Olhei por cima do ombro de cada um: tiveram que se desviar, porque tiveram medo de serem atravessadas por uma vida. Sentindo a força que escondia no peito, enfiei-me por dentro de cada um: nem vazio havia. Havia nada. Ninguém sentia a força da vida na travessia. Contas a pagar, trabalhos a fazer, amantes à espera. Nem mendigos consegui ver. Pois via tudo de cima e de onde só quem escalou montanhas e desceu às profundezas de si mesmo pode ver. Olham para monumentos mas enxergam apenas a si mesmos. Um mundo confeitado de narcisos e ninfas indiscriminadamente. Um mundo com aspecto mal cheiroso. Um mundo pobre ruindo pela solidão.” “Nesta homenagem a Nietzsche e Voltaire, uma mulher aprende a conviver com a solidão e a refletir sobre os próprios conflitos. Conversando com ilustres pensadores e anotando Zaratustra, a discípula assimila um outro mundo e constrói um pensamento acerca da pluralidade dos mundos,vivenciando várias personalidades e testando teorias epicuristas que a levam a duvidar de um único ser e, por conseguinte, de um deus único..

    Assim Amei Zaratustra é o isolamento de uma pessoa que vira as costas para o sistema e, não obstante, desfruta de uma loucura assaz importante para qualquer um que pretenda defender suas idéias. O romance convida para uma profunda reflexão, o velho tripé da filosofia: de onde viemos, para que e para onde vamos. Ninguém pretende responder a perguntas irrespondíveis, mas aprender sempre, como viver intensamente, passeando por todas as dores e emoções que a vida oferece.“É maravilhoso poder olhar para trás, agora, que já consigo compreender e conviver com a loucura” –, constata a discípula, num emocionante desabafo em que se liberta de perdas aparentemente irreparáveis. Noutro, ela diz: “Quem escreve com o sangue derrama espírito.” Assim Amei Zaratustra é uma história cheia de impossibilidades, de surrealismo, de êxtases e de muita solidão. O romance dos espíritos sutis.”

    Carlos Carbonel
    abraço
    (tio) Renato

    Comment by Renato — 10/07/2014 @ 2:18 AM

    • Renato, que coisa mais linda! Isto merece um post – é um livro?

      bj
      Fy

      Comment by Fy — 10/07/2014 @ 5:14 AM

  6. O que me encanta nesse Nietzsche é ele saber que a filosofia brinca de deus – ao passo que daí vem uma coisa linda e pagã.

    A filosofia, ah, como ela é tagarela. Mas vem aí, ele anuncia, um advento inexoravelmente criador.

    Quando Prometeu meter a mão dentro da physis, e arrancar suas tripas, e ostentá-las ao mundo, restará aos filósofos, uma gragalhada sublime.

    Nietzsche antecipa-lhes o destino, que se resume a dar de ombros, se, acaso se, não circunscreverem também no coração da matéria seu labor de dizer coisas.

    Quero isso para mim – meu corpo não me permitiria nada diferente, agora.

    A pagã que sou e a filósofa que brinca em mim definitivamente encarnaram.

    Descobri a terra de que meu espírito é feito – e é até o fundo dela que quero enfiar a mão.

    Também.

    beijo,

    Marianne

    Comment by Marianne — 10/07/2014 @ 3:39 AM

    • Quero isso para mim – meu corpo não me permitiria nada diferente, agora. –

      Nossa Marianne, que coisa bonita. É bem por aí a mensagem da Miriam. hahaha, por isto Nietzsche é perigoso… – A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original. – Dizem que quem disse foi Einstein.

      bj
      Fy

      Comment by Fy — 10/07/2014 @ 5:13 AM

  7. Outro texto bacana. Mulheres que se reencontram, se perdem, se descobrem, mulheres nietzschianas. Uns parágrafos para ilustrar:

    Mulheres Nietzscheanas:

    Maria Eugênia descobriu que pode ser várias em uma.
    Mulher pudica, sensual, feminista, arrogante, egoísta, mentirosa, simpática, honesta e uma coleção de adjetivos carregados só nela, dentro dela…
    Maria Eugênia antes de dormir arranca com as unhas uma das milhares cascas que lhe cobrem, e sempre acorda uma outra Maria Eugênia…
    E a cada dia, vai arrancando, arrancando, arrancado… algumas vezes ela sangra, outras vezes parece casca seca dormida ao sol… e vai arrancando, arrancando, arrancando.
    Até que descobre que por dentro das casca, há um infinito de cascas, irreconhecíveis, indizíveis, epifânicos, inumeráveis; uma Maria Eugênia no plural, como toda mulher, como todas as pessoas.
    Nietzsche explica.

    Lindas gravuras!

    Comment by Adriana — 10/07/2014 @ 3:59 AM

    • um infinito de cascas, irreconhecíveis, indizíveis, epifânicos, inumeráveis; uma Maria Eugênia no plural, como toda mulher, como todas as pessoas.
      Nietzsche explica.

      e Deleuze confirma… – adorei Adriana!

      Mas me fala… é preciso coragem pra deixar todas as Marias à vontade, dentro de nós. Mas como é bom quando elas nos surpreendem.

      bj
      Fy

      Comment by Fy — 10/07/2014 @ 5:09 AM

  8. Adriana, o Nietzsche precisa contar isto pra garotada da copa que perdeu casca, identidade e futebol. TÔ tonto até agora. Olha, nem Nietzsche explica.

    Comment by Gabriel — 10/07/2014 @ 4:01 AM

  9. É impossível ler Nietzsche e não passar por uma transformação, ou por várias. Muita gente fica confusa, perdida ao conhecer sua filosofia depois de ter passado pelos modismos psicológicos de Freud, Jung, comuns à nossa época. A filosofia de Nietzsche é um apelo à vida e, portanto, um apelo à sensibilidade, tão negada com o “descobrimento” da subjetividade na modernidade. Entretanto, esse apelo à vida, por incrível que pareça, é um apelo ao caos. É uma peitada no caos. Nem todo mundo está preparado para encarar esta abertura total. Um trecho relevante do Gaia Ciência: A consciência intelectual.

    “– Continuo tendo a mesma experiência e me rebelando igualmente sem cessar contra ela, não desejo acreditar nela, ainda que me seja palpável: a grande maioria das pessoas não tem consciência intelectual; e freqüentemente quis me parecer que se alguém a exige, nas mais populosas cidades, acha-se tão só como no deserto. Cada qual olha para você com olhar estrangeiro e prossegue no uso da sua balança, chamando a isso de bom e àquilo de mau; ninguém se enrubesce, quando você dá a entender que os pesos não estão justos – tampouco há indignação contra você: talvez riam de sua dúvida. Quero dizer: a grande maioria não acha desprezível acreditar isso ou aquilo e viver conforme tal crença, sem antes haver se tornado consciente das últimas e mais seguras razões a favor ou contra ela, e sem mesmo se preocupar depois com tais razões – os mais talentosos homens e as mais nobres mulheres também fazem parte dessa grande maioria. Mas que significam bondade, finura e gênio para mim, quando a pessoa que tem essas virtudes tolera em si mesma sentimentos frouxos ao crer e julgar, quando a exigência de certeza não constitui para ela o mais íntimo desejo e a mais profunda necessidade – o que distingue os homens superiores dos inferiores! Em algumas pessoas piedosas encontrei ódio à razão e isso me agradou nelas; ao menos se revelava assim a má consciência intelectual! Mas estar em meio a essa rerum concordia discors e toda a maravilhosa incerteza e ambigüidade da existência e não interrogar, não tremer de ânsia e gosto da interrogação, nem sequer odiar quem interroga, talvez até se divertindo levemente com este – isto é o que percebo como desprezível, e tal percepção é o que busco primeiramente em cada indivíduo: – algum desatino está sempre a me convencer de que todo ser humano tem esta percepção, como ser humano. É minha espécie de injustiça.”

    abraço aê, meio brochado pelo pesadelo de ontem, sem comentários, Gabriel.
    João Pedro

    Comment by João Pedro — 10/07/2014 @ 4:28 AM

    • Oi Jonas, saudades! – eu também acho que, à princípio, o Conhecimento na voz de Nietzsche que tem como um dos seus principais alvos atacar a noção de verdade, só é acessível aos “lobos”, como diz a Miriam. Alcançar a crítica de Nietzsche ao conceito vigente de verdade, super utilizado pelos filósofos dogmáticos e crentes de absurdos como parâmetro aparentemente confortável para a elaboração de uma interpretação de mundo única e imutável, centralizadora e completamente sacana, nos retira esta sensação patética e deformada de um welfare mentiroso e acomodado, e por isto mesmo é traumatizante para mentes medíocres. Estas posições imbecis de “verdades pra lá e pra cá, mostram completa incongruência em relação à proposta nietzscheana de Conhecimento, só restringem os caminhos pra se compreender o mundo a partir de sua fluidez e, principalmente de sua indeterminação. Assim, a noção de verdade[s] estão sempre se chocando com o perspectivismo de Niet.

      Ah…. este foi meu choque [ total] naquele cemitério “anoitense”. – acho que por estas e outras, compreendo a Miriam pra lá de bem !!!!! – e nada como voltar a correr com Lobos!
      bj
      Fy

      Comment by Fy — 10/07/2014 @ 4:54 AM

  10. Para ilustrar um pouco mais, e ainda bem mais quando eu colocar a Viviane Mosé, vai aqui algumas considerações nietzschianas da filósofa Scarlett Marton, professora da Universidade de São Paulo, que é reconhecida internacionalmente como uma das maiores autoridades no estudo do pensamento nietzschiano.

    por Paula Ignacio*

    * Dentre inúmeros autores e grandes filósofos, por que Nietzsche?

    Scarlett Marton: É uma pergunta que merece uma resposta em dois níveis diferentes. No nível pessoal, o que ocorreu foi que na década de 1970, enquanto eu ainda estava no segundo ano da graduação de Filosofia na USP, eu fui à biblioteca e me caiu às mãos a Genealogia da Moral. Quando digo “me caiu às mãos” é como se tudo tivesse sido uma trama do acaso. O que quero dizer com isso é que nós somos, no meu entender, por demais voluntaristas, porque acreditamos que podemos tudo. Na verdade, essa é uma concepção que vem da modernidade, e ao que me parece, as coisas não se dão exatamente assim. Tenho a impressão de que nós somos muito mais determinados do que poderíamos suportar. No que diz respeito ao nível filosófico, eu diria que a filosofia nietzschiana me causou grande impacto pelo fato de Nietzsche ter suprimido a culpa. Tenho a impressão de que, junto a Freud, é um pensador que procurou inocentar a existência humana. Como a história da sociedade ocidental está assentada sobre a ideia de culpa e ainda dissemina esse sentimento, no meu viver e no meu entender, a supressão dessa ideia através da filosofia foi extremamente libertadora.

    *Poderia comentar sobre os diferentes contextos históricos nos quais Nietzsche foi “inserido” no Brasil?

    Scarlett Marlon: Nietzsche chegou ao Brasil em 1910, através do movimento anarquista espanhol, e deixou uma marca muito grande na produção de textos literários produzidos pelos anarquistas. Em um segundo momento, um pouco antes do início da Segunda Grande Guerra, quando passou a ser apropriado pelos integralistas, como o a Plínio Salgado, por exemplo. As ideias do filósofo sofreram uma apropriação de caráter ideológico, apareceram em revistas, jornais ligados ao movimento integralista. Já em um terceiro momento, Nietzsche retornou ao Brasil na década de 1970 através da filosofia francesa, em particular com o estudo dos pensadores Foucault e Deleuze. Suas ideias também continuaram sofrendo apropriações para justificar pulsões, idealismos políticos, onde ele “atuava” e era reconhecido como um filósofo da transgressão. Por volta do ano 2000, Nietzsche virou pop. Aparece como um Nietzsche domesticado, como um objeto de consumo. Fora das universidades, hoje, Nietzsche ainda é visto como um fi- lósofo da transgressão, de um modo geral talvez por isso ele cative tanto a juventude, por conta desse caráter realmente transgressor. É como se Nietzsche encarnasse de fato um pensador libertário. Ele ainda nos liberta da culpa, do peso da vida como um vale de lágrimas, da vida como sacrifício. No entanto, não podemos nos esquecer que em muitos aspectos ele é um pensador muito conservador também.

    *Qual a importância dos primeiros escritos de Nietzsche para a compreensão da totalidade da sua obra?

    Scarlett Marlon: Há diferentes maneiras de se compreender a filosofia nietzschiana, e eu compreendo como uma progressiva explicitação de ideias que já estão presentes nos seus primeiros textos. Existem certas ideias e certos projetos que aparecem na juventude, mas que Nietzsche vai perseguir ao longo do desenvolvimento de toda a sua filosofia. Por exemplo, a questão da Cultura. Quando Nietzsche faz uma crítica radical da Civilização Ocidental e trabalha com uma nova concepção de cultura que ele herda dos chamados neo-helenistas, na qual Goethe também estava presente e que marcou o Romantismo Alemão. Essa concepção pensa que a cultura deve ser desvinculada de todo utilitarismo, de toda ordem prática, a ideia é a de cultura como aprimoramento, como cultivo do próprio espírito de uma forma integral. Essa concepção já é encontrada nos primeiros textos nietzschianos, como em Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino, por exemplo. Em Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Formação, que seria uma tradução mais adequada para Bildung, termo alemão que significa o conceito de formação alemã do final do século 19, um Nietzsche jovem fala sobre a importância da continuidade da formação fora dos estabelecimentos, da formação no sentido de uma educação integral que possibilite o desenvolvimento de todas as nossas potencialidades. Assim, surge a figura do gênio, do homem superior no sentido nietzschiano, que é aquele que sabe quando romper com a cultura vigente para promover outra cultura, que cria novos valores não apenas embasados no cristianismo e na filosofia platônica, mas preocupados com este corpo, com esta vida. A influência schopenhaueriana para Nietzsche está presente principalmente nos primeiros textos, que vão desde O Nascimento da Tragédia até as Considerações Extemporâneas, e acho que está presente antes de mais nada, na sua visão de mundo a partir da música, também na própria concepção de vontade. Nietzsche, quando traz o conceito de Vontade de Potência, rompe com Schopenhauer no sentido de querer viver uma vontade cega. Ele não precisaria do conceito de Potência, pois em sua filosofia ele desenvolveu a noção de Força, que já contém todos os elementos que mais tarde ele atribuiria a Vontade. Assim, Nietzsche rompe, mas de certa maneira ainda continua dialogando com as ideias do seu filósofo “formador” quando dá ao conceito uma amplidão maior dos elementos que podem estar contidos nele, acrescentando oposições as definições de Schopenhauer.

    daqui a pouco eu trago a Mosé, que não pode ficar de fora deste bate-papo.

    tio Guz

    Comment by Gustavo — 10/07/2014 @ 5:49 AM

  11. Fora das universidades, hoje, Nietzsche ainda é visto como um filósofo da transgressão, de um modo geral talvez por isso ele cative tanto a juventude, por conta desse caráter realmente transgressor. É como se Nietzsche encarnasse de fato um pensador libertário. Ele ainda nos liberta da culpa, do peso da vida como um vale de lágrimas, da vida como sacrifício. –

    Ah…. mas este é o maior valor de Nietzsche…. – pena que os medíocres conservem aquele sensação, de que “sem a culpa” fica faltando alguma coisa….

    Mas enfim, este é um dos pontos de convergência e inspiração para os filósofos malditos… que eu gosto tanto….

    Roubei da Miriam, lá no facebook:

    “Mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam, que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em um momento particular da história, e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída.”
    (Michel Foucault) – isto é Nietzsche na veia.

    bj
    Fy

    Comment by Fy — 10/07/2014 @ 6:01 AM

  12. Olá, pessoal, não me graduei em Filosofia, mas fiz vários cursos avulsos com Claudo Ulpiano, Henrique Antun e Gerd acompanhado o blog, cada dia mais interessante, bonito e inspirador. Fiquei bem feliz ao ler tanta coisa boa Bornheim e principalmente li os filósofos que me interessavam. Estou um tanto afastada, mas sempre volto com saudades. Tenho sobre Nietzsche, pois sempre fui sua defensora, já que não faltou ou falta quem o acuse. O grande problema é que Nietzsche escreveu de modo direto e jornalístico. Ele não estava preocupado com bocós capazes de copiá-lo e transformar seus escritos em doutrinas baratas. Há quem diga que Adorno acertou mais fazendo o que fez. Duvido. Já vi até mesmo Adorno ser lido por farofeiros no Guarujá. Creio que Platão sim, já se preocupava em divulgar sua filosofia amplamente e por isso a teria escrito em forma de diálogos, com clareza coloquial. E já soube que Aristóteles teria se preocupado em ser menos lido do que Platão e teria reescrito suas idéias de forma mais clara em escritos “exotéricos”, que teriam sido queimados no incêndio da Biblioteca de Alexandria.
    Para mim, basta aproveitar uma única coisa em Nietzche para ele mudar sua vida. O conceito dele que mais me seduz é o de alegria dionisíaca, sem necessidade de procurar sentido para a vida (vontade de verdade). E quanto ao que dizem dele não gostar ou diminuir a mulher, ( opinião que delata uma leitura não preparada) é exatamente o contrário, ele é contra tudo aquilo que se esconde e atua através da fraquesa, do menos, da submissão, do menor. Sem desconsiderar que esta posição tenha sido imposta pelas execráveis orientações cristãs, ele critica a mulher que nelas se acomodou. Mas ele disse que a “super-mulher” é um tipo mais raro que o “super-homem”, mas quando surge é mais aprimorada que o segundo.
    Seu blog é lindo e parabéns a todos os que comentam.

    Comment by Laísa — 10/07/2014 @ 9:39 AM

  13. Oi Laisa, entre e fique a vontade, o Wind é ótimo anfitrião!
    Quanto ao seu comentário, bastante relevante porque não se pode discutir Nietzsche sem apntar as famosas críticas de quem não estava preparado para lê-lo, concordo em sílaba e grau. Mas ele mesmo prevê esta certa dificuldade em relação à sua leitura quando diz: “Que em meus escritos fala um psicólogo sem igual é talvez a primeira constatação a que se chega um bom leitor – um leitor como eu o mereço, que me leia como os bons filólogos de outrora liam o seu Horácio.”

    E quanto à mulher, como voce muito bem posicionou, eu gosto muito desta passagem, no prólogo de Para além do Bem e do Mal:
    ” Supondo que a verdade seja uma mulher – não seria bem fundada a suspeita de que todos filósofos, na medida em que foram dogmáticos, entenderam pouco de mulheres? De que a terrível seriedade, a desajeitada insistência com que até agora se aproximaram da verdade, foram meios inábeis e impróprios para conquistar uma dama? É certo que ela não deixou conquistar – e hoje toda espécie de dogmatismo está de braços cruzados, triste e sem ânimo.”
    Seja bem vinda,
    tio Guz

    Comment by Gustavo — 10/07/2014 @ 10:24 AM

  14. Nietzsche é um grande impacto, o maior impacto pelo fato de ter suprimido a Culpa, artifício infame de controle. É um pensador que procurou inocentar a existência humana, de uma culpa criada pelo imaginario político do Poder. Ele liberta.E aí então ele se torna maldito. um terrorista que dinamita a história da sociedade ocidental que está assentada sobre a ideia de culpa e que só disseminando esse sentimento consegue centralizar. E esta culpa, sua ferramenta de controle advem de uma moral implantada. Toda a estrutura nietzschiana é marcada por uma crítica radical ao humanismo, e nesse argumento existe não só a possibilidade de superação do “homem masculino”, mas a possibilidade de “uma superação do gênero , da espécie”. Aí é que a mulher se torna uma personagem conceitual , onde seria impossível uma investigação passiva, uma sólida benevolência . Sua tarefa é causar náuseas, nausear, e é o exercício de esmiuçar, cutucar e verificar nos corpos seus impulsos reativos, sua conexão repugnante com os valores e com a moral. E, não vamos esquecer o estereotipo das mulheres da sua época. Dá pra escrever um monte aqui. Lembrando que este estereotipo foi o alvo principal das primeiras feministas. Do que sei , Nietzsche escracha com a submissão. Escracha com a moral do escravo. E aponta os perigos desta submissão. Taí o que ele encherga na mulher da sua época. Forçada a uma submissão estereotipada, ela passa a se servir desta fraqueza, a se conectar com o papel de escravo e a manipular através desta fraqueza, e aí constroi um estereotipo que foge do que ela é realmente. Talvez fôsse tudo o que pudesse fazer. Daí é que se pode analizar as críticas de Nietzsche, conhecendo-o bem.

    aloha pessoal
    beijo, menina.
    TocaYo

    Comment by TocaYo — 11/07/2014 @ 2:20 AM

  15. Eu simplesmente amo este blog. Parabéns a todos.

    Comment by Christiane Najar — 12/07/2014 @ 2:30 AM

  16. Bela história e texto! abrs!

    Comment by Caio — 12/07/2014 @ 7:18 AM

  17. Blog maravilhoso e delicioso de ler, passo horas aqui. Todas as idéias desenvolvidas são bacanas, interessantes e bem articuladas. Bem legal.

    Comment by Amanda — 18/07/2014 @ 11:42 AM


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